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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

INFLUÊNCIAS GNÓSTICAS E NEOPLATÔNICAS NO PENSAMENTO DE AGOSTINHO DE HIPONA: UMA AVALIAÇÃO CRÍTICA À LUZ DA TEOLOGIA PENTECOSTAL

08.01.2026
Postado pelo pastor Irineu Messias

Resumo

O presente artigo analisa criticamente as possíveis influências do gnosticismo e do neoplatonismo no pensamento de Agostinho de Hipona (354–430), considerando seu contexto histórico, filosófico e teológico. Embora Agostinho seja reconhecido como um dos principais teólogos da Igreja Antiga e defensor da ortodoxia cristã contra heresias como o maniqueísmo, alguns elementos de sua teologia — como a ênfase na interioridade, a hierarquização entre espírito e matéria e a concepção do conhecimento como iluminação — suscitam debates quanto a possíveis aproximações conceituais com o gnosticismo. A partir de uma perspectiva evangélica pentecostal, especialmente assembleiana, o artigo argumenta que Agostinho não foi gnóstico, mas que certas categorias filosóficas por ele utilizadas influenciaram posteriormente leituras cristãs que favoreceram espiritualizações excessivas e distanciamento da centralidade bíblica. Conclui-se que a teologia pentecostal, fundamentada na suficiência das Escrituras, na encarnação histórica de Cristo e na atuação concreta do Espírito Santo, oferece critérios seguros para discernir e rejeitar quaisquer resquícios gnósticos no pensamento cristão.

1 Introdução

Agostinho de Hipona ocupa lugar central na história do pensamento cristão ocidental. Sua influência estende-se à teologia medieval, à Reforma Protestante e à teologia contemporânea. Contudo, seu pensamento foi moldado em um ambiente fortemente influenciado por correntes filosófico-religiosas como o maniqueísmo, o neoplatonismo e remanescentes do gnosticismo dos séculos anteriores.

O objetivo deste artigo é analisar criticamente quais ideias de Agostinho podem ser associadas, direta ou indiretamente, ao gnosticismo, distinguindo influência cultural de adesão doutrinária. A análise será conduzida à luz da teologia evangélica pentecostal, particularmente da tradição assembleiana, que enfatiza a autoridade das Escrituras, a encarnação real de Cristo e a atuação do Espírito Santo na vida do crente.

2 O Gnosticismo: Características Fundamentais

O gnosticismo não constituiu um movimento uniforme, mas um conjunto de sistemas religiosos que compartilhavam algumas características comuns, tais como:

  • dualismo radical entre espírito (bom) e matéria (má);
  • compreensão da salvação como libertação da alma por meio de um conhecimento secreto (gnosis);
  • visão negativa da criação material;
  • tendência a reinterpretar a pessoa de Cristo, negando sua encarnação plena.

A Escritura rejeita explicitamente tais concepções, afirmando a bondade da criação (Gênesis 1.31), a encarnação real do Verbo (João 1.14) e a salvação pela graça mediante a fé (Efésios 2.8–9).

3 A Formação Intelectual de Agostinho

Agostinho foi adepto do maniqueísmo por cerca de nove anos, sistema profundamente dualista. Posteriormente, aproximou-se do neoplatonismo, que lhe ofereceu categorias filosóficas para pensar a transcendência divina. Sua conversão ao cristianismo marcou uma ruptura consciente com o gnosticismo e o maniqueísmo, como evidenciado em suas Confissões.

Todavia, o uso de categorias platônicas — como a superioridade do imaterial sobre o material — permaneceu em sua reflexão teológica.

4 Pontos de Diálogo e Distanciamento entre Agostinho e o Gnosticismo

4.1 Dualismo Ontológico Atenuado

Agostinho rejeita o dualismo gnóstico ao afirmar que toda a criação procede de Deus e, portanto, é boa. Contudo, estabelece uma hierarquia ontológica em que o espiritual é superior ao material. Embora não herética, essa concepção contribuiu para interpretações posteriores que desvalorizaram o corpo e a materialidade.

4.2 Conhecimento e Iluminação

Enquanto o gnosticismo ensina que o conhecimento salva, Agostinho afirma que o conhecimento verdadeiro provém da iluminação divina e está subordinado à graça. Ainda assim, sua forte ênfase na interioridade intelectual foi, em certos períodos da história, interpretada de forma elitista, aproximando-se de um intelectualismo soteriológico.

4.3 Interioridade e Ascensão da Alma

A famosa exortação agostiniana à interioridade ecoa métodos gnósticos de ascensão espiritual. Entretanto, em Agostinho, o retorno ao interior visa o encontro com Deus criador e redentor, não a fuga da criação.

5 Avaliação Crítica à Luz da Teologia Pentecostal/Assembleiana

A tradição pentecostal, particularmente a vertente assembleiana, tem historicamente se pautado pela primazia da Palavra de Deus, pela fé vivencial no poder do Espírito Santo e pela rejeição de especulações filosóficas que deslocam o centro da fé cristã da revelação bíblica para construções humanas (COLOSSENSES 2.8). Nesse sentido, a avaliação crítica do pensamento agostiniano deve ser feita não com o intuito de desqualificá-lo como Pai da Igreja, mas sim para discernir, à luz das Escrituras, os elementos que podem comprometer a integralidade do evangelho.

5.1 A Suficiência e Centralidade das Escrituras

Agostinho, embora tenha afirmado a autoridade das Escrituras, frequentemente recorreu a categorias platônicas para interpretar a fé cristã, como quando afirma que “Deus é a Verdade imutável, acima do tempo e do espaço” (Confissões, VII, 10). Essa formulação, ainda que útil para refutar o maniqueísmo, pode levar a uma desencarnação da verdade divina, sugerindo que o conhecimento de Deus é acessível apenas por meio de uma contemplação intelectual abstrata — algo que contrasta com a revelação progressiva, histórica e encarnada apresentada nas Escrituras.

A teologia pentecostal insiste que toda verdade necessária à salvação e à vida cristã está plenamente contida nas Escrituras (2 Timóteo 3.16–17). O apóstolo Paulo adverte contra a “filosofia e vãs sutilezas” (Colossenses 2.8), e João escreve que a verdadeira comunhão com Deus se dá “na luz” da Palavra encarnada (1 João 1.1–3). Assim, qualquer sistema teológico que subordina a clareza da Escritura a pressupostos filosóficos — mesmo que com boas intenções — corre o risco de substituir a simplicidade do evangelho por complexidades humanas (RAMM, 1957).

5.2 A Encarnação Plena de Cristo e a Redenção da Materialidade

O gnosticismo negava a encarnação real de Cristo, pois considerava a matéria intrinsecamente má. Agostinho, embora tenha defendido a encarnação contra os maniqueus, manteve uma visão hierárquica entre espírito e corpo, influenciada pelo neoplatonismo. Em De Trinitate, ele sugere que a alma humana é mais semelhante a Deus do que o corpo, o que pode implicar uma desvalorização implícita da corporeidade.

A teologia pentecostal rejeita essa dicotomia. A Bíblia ensina que Deus criou o mundo material como bom (Gênesis 1.31), que Cristo assumiu plenamente a carne (João 1.14; 1 João 4.2–3) e que a redenção inclui a ressurreição do corpo (1 Coríntios 15.42–44). O próprio Espírito Santo habita corpos físicos (1 Coríntios 6.19), santificando-os como templos vivos. Portanto, qualquer teologia que promove uma fuga do mundo material em nome de uma “espiritualidade pura” está em desacordo com a cosmovisão bíblica (YONG, 2011).

5.3 O Espírito Santo: Presença Ativa, Não Apenas Iluminação Intelectual

Agostinho via o conhecimento de Deus como fruto de uma iluminação interior, muitas vezes descrita em termos contemplativos e introspectivos. Embora isso não seja idêntico à gnosis gnóstica, há um risco de intelectualizar a experiência com Deus, reduzindo-a a um ato cognitivo privado.

A teologia pentecostal, porém, enfatiza que o Espírito Santo não apenas ilumina a mente, mas capacita, unge, cura, liberta e age de forma tangível na história (Atos 1.8; 2.1–4; 10.38). A fé pentecostal não se limita à interioridade subjetiva, mas se expressa em comunidade, testemunho, justiça social e milagres — sinais visíveis do Reino de Deus. Essa dimensão pneumática e escatológica da fé cristã é ausente ou minimizada nas leituras excessivamente neoplatônicas de Agostinho (DAYTON, 1987).

5.4 Advertência Contra Formas Contemporâneas de Gnosticismo

Hoje, manifestações modernas de gnosticismo aparecem sob novas roupagens: espiritualismo desencarnado, dualismo moralista (espírito = santo; corpo = pecaminoso), busca por experiências místicas desvinculadas da Palavra e até teologias da prosperidade que negam o sofrimento corporal como parte da existência redimida. A herança agostiniana, quando mal compreendida, pode alimentar essas tendências.

A tradição assembleiana, fiel ao princípio de “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3.16), serve como antídoto contra tais desvios. Seu foco na pregação expositiva, na vida de santidade integral (incluindo o corpo), e na manifestação dos dons espirituais (1 Coríntios 12–14) garante uma espiritualidade bíblica, encarnada e comunitária (GILBERTO, 2002).

6. Considerações Finais

Agostinho de Hipona permanece como uma figura monumental na história da Igreja, cuja contribuição à doutrina da graça, da Trindade e da natureza humana é inegável. Contudo, sua dependência de categorias neoplatônicas — ainda que instrumentalizadas para fins apologéticos — introduziu tensões que, ao longo dos séculos, facilitaram interpretações dualistas e elitistas da fé cristã.

A teologia pentecostal, especialmente na tradição assembleiana, oferece um critério normativo seguro: a autoridade plena das Escrituras, a realidade da encarnação, e a atuação histórica e poderosa do Espírito Santo. Esses pilares permitem não apenas reconhecer as virtudes do pensamento agostiniano, mas também discernir e corrigir suas limitações, prevenindo a infiltração de mentalidades gnósticas disfarçadas de piedade. Assim, o pentecostalismo não rejeita a tradição patrística, mas a submete ao juízo da Palavra viva (Hebreus 4.12).

Referências

AGOSTINHO. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 1997.

______. A Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes, 1999.

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

BROWN, Peter. Agostinho de Hipona: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2005.

DAYTON, Donald W. Theological roots of Pentecostalism. Grand Rapids: Zondervan, 1987.

GILBERTO, Antônio. Doutrinas bíblicas. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), 2002.

PELIKAN, Jaroslav. A tradição cristã: vol. 1 – A emergência da tradição católica (100–600). São Paulo: Loyola, 2006.

RAMM, Bernard L. The pattern of authority. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

STAMPS, Donald C. (Ed.). Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.

YONG, Amos. The spirit of creation: modern science and divine action in the Pentecostal-charismatic imagination. Grand Rapids: Eerdmans, 2011.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

As Linhagens Levíticas e Suas Funções no Tabernáculo: Ordem, Santidade e Serviço na Economia do Culto Israelita

31.12.2025

Postado pelo pastor Irineu Messias 

Introdução

O Tabernáculo ocupa lugar central na teologia do Antigo Testamento como o espaço da habitação simbólica de Deus no meio do povo de Israel (Êx 25.8). Para que o culto fosse realizado de maneira santa, organizada e fiel à vontade divina, Deus escolheu a tribo de Levi para o serviço sagrado. Contudo, esse serviço não foi homogêneo: as linhagens levíticas receberam funções distintas, revelando um princípio teológico fundamental — Deus é um Deus de ordem, santidade e vocação específica.

Este artigo analisa o papel das três linhagens de Levi — Gérson, Coate e Merari —, bem como a distinção entre levitas e sacerdotes, destacando o sacerdócio aarônico e sua relevância teológica.

1. A Escolha da Tribo de Levi

A tribo de Levi foi separada por Deus para o serviço do santuário em substituição aos primogênitos de Israel (Nm 3.12–13). Diferentemente das demais tribos, Levi não recebeu herança territorial, pois sua herança era o próprio Senhor (Nm 18.20; Dt 10.9).

 “Naquele tempo separou o Senhor a tribo de Levi para levar a arca da aliança do Senhor, para estar diante do Senhor, para o servir e para abençoar em seu nome.” (Deuteronômio 10.8).

2. Os Três Filhos de Levi e Suas Linhagens

Levi teve três filhos, dos quais se originaram as principais famílias levíticas:

“E os filhos de Levi foram: Gérson, Coate e Merari.” (Êxodo 6.16).

Cada linhagem recebeu atribuições específicas relacionadas ao Tabernáculo, conforme detalhado nos livros de Números e Êxodo.

3. A Linhagem de Gérson: As Cortinas e Coberturas

Os gersonitas ficaram responsáveis pelos elementos móveis e têxteis do Tabernáculo:

Cortinas

Coberturas

Véus

Cordas

Números 3.25–26; 4.24–28

Esses elementos delimitavam e protegiam o espaço sagrado, indicando que o acesso à presença de Deus era regulado e santo.

Ênfase teológica:

A linhagem de Gérson cuidava daquilo que separava o sagrado do comum, ressaltando a santidade divina.

4. A Linhagem de Coate: Os Objetos Santíssimos

Os coatitas receberam a função mais sensível: o transporte dos objetos sagrados do santuário:

Arca da Aliança

Mesa dos pães

Candelabro

Altares

Utensílios do culto

 Números 3.31; 4.4–15

Esses objetos só podiam ser transportados após serem cobertos pelos sacerdotes, e jamais tocados diretamente, sob pena de morte (Nm 4.15).

Ênfase teológica:

Os coatitas simbolizam o centro do culto, a proximidade com a presença divina, que exige reverência e obediência absoluta.

5. A Linhagem de Merari: A Estrutura do Tabernáculo

Os meraritas eram responsáveis pela estrutura física:

Tábuas

Colunas

Bases

Barras

Estacas

📖 Números 3.36–37; 4.29–33

Esses elementos garantiam estabilidade e sustentação ao Tabernáculo.

Ênfase teológica:

A linhagem de Merari revela que o serviço aparentemente “pesado” ou menos visível é igualmente essencial para a obra de Deus.

6. O Sacerdócio: A Casa de Arão

Embora todos os sacerdotes fossem levitas, nem todos os levitas eram sacerdotes. O sacerdócio foi concedido exclusivamente à família de Arão, descendente de Coate.

 Êxodo 28.1; Números 3.10

 “Faze chegar a ti Arão, teu irmão, e seus filhos, para que me sirvam no sacerdócio.” (Êxodo 28.1)

Os sacerdotes eram responsáveis por:

Oferecer sacrifícios

Ensinar a Lei

Interceder pelo povo

Ministrar no Lugar Santo

O sumo sacerdote, em especial, entrava no Santo dos Santos uma vez por ano (Lv 16).

7. Moisés e Arão: Chamados Distintos na Mesma Linhagem

Moisés e Arão pertenciam à linhagem de Coate (Êx 6.18–20). Contudo, seus chamados eram distintos:

Moisés: profeta, mediador da Lei e líder nacional (Dt 34.10)

Arão: sacerdote e mediador cultual (Êx 28.1)

Essa distinção reforça que autoridade espiritual não é uniforme, mas distribuída segundo o propósito divino.

8. Síntese Teológica e Aplicação Cristã

O sistema levítico revela princípios teológicos permanentes:

1. Deus é um Deus de ordem e santidade (1Co 14.40)

2. O serviço a Deus envolve diversidade de dons

3. Nenhuma função no culto é irrelevante

No Novo Testamento, o sacerdócio levítico encontra seu cumprimento em Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote eterno (Hb 4.14; 7.23–28), e a Igreja é chamada a viver o sacerdócio universal dos crentes (1Pe 2.9).

Conclusão

As linhagens levíticas e suas funções no Tabernáculo demonstram que o culto verdadeiro exige santidade, obediência e vocação específica. Cada família serviu conforme o chamado recebido, cooperando para que a presença de Deus permanecesse no meio do povo. Esse modelo continua a instruir a Igreja quanto à importância da fidelidade, da diversidade ministerial e da centralidade da presença divina.

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sábado, 27 de dezembro de 2025

O Tempo na Época de Jesus: Uma comparação entre o calendário bíblico e o nosso sistema moderno

 26.12.2025

Postado pelo pastor Irineu Messias

O modo como o tempo era contado na época de Jesus é bem diferente do que usamos hoje. Entender esse sistema nos ajuda a compreender melhor as Escrituras e, ao mesmo tempo, nos lembra que o tempo tem um significado espiritual profundo na vida cristã.

Como o Dia Era Contado

Na tradição judaica, o dia começava ao pôr do sol, conforme Gênesis 1.5: “Houve tarde e manhã, o primeiro dia”. Assim, a sequência era noite → manhã → dia completo. Esse detalhe mostra que a vida, segundo a perspectiva bíblica, começa no descanso e na confiança em Deus.

Divisão das Horas do Dia

O período de luz era dividido em 12 horas, que variavam conforme a estação do ano. Aproximadamente, iam das 6h às 18h. Por isso, quando os Evangelhos mencionam a “sexta hora” ou a “nona hora”, podemos relacionar com momentos específicos do nosso relógio moderno.

Tabela das Horas Bíblicas

Para facilitar a compreensão, veja a equivalência aproximada:

  • 1ª hora ≈ 6h
  • 3ª hora ≈ 9h
  • 6ª hora ≈ 12h
  • 9ª hora ≈ 15h
  • 10ª hora ≈ 16h
  • 11ª hora ≈ 17h
  • 12ª hora ≈ 18h

Assim, quando Marcos 15.25 afirma que Jesus foi crucificado “na terceira hora”, entendemos que isso aconteceu por volta das 9h da manhã.

As Vigílias da Noite

Além das horas do dia, havia a divisão da noite em vigílias. O sistema judaico contava três vigílias, enquanto o romano, presente no Novo Testamento, falava em quatro. É nesse contexto que Mateus 14.25 registra que Jesus veio andando sobre o mar “na quarta vigília da noite”, ou seja, entre 3h e 6h da manhã.

Comparação com o Sistema Atual

Hoje, nosso dia começa à meia-noite e as horas são fixas, reguladas por relógios precisos. Essa diferença mostra como o tempo foi padronizado ao longo da história, mas também nos lembra que, na Bíblia, o tempo era percebido de forma mais orgânica, ligada ao ritmo da natureza.

O Significado Teológico do Tempo

A Bíblia distingue entre dois tipos de tempo:

  • Chronos: o tempo cronológico, que marca minutos e horas.
  • Kairós: o tempo oportuno de Deus, o momento certo em que Ele age.

Em Marcos 1.15, Jesus proclama: Cumpriu-se o tempo. Aqui, não se trata apenas de cronologia, mas da intervenção divina na história.

Aplicação Cristã

O estudo do tempo bíblico nos ensina que Deus pode nos chamar em qualquer hora. Sua graça se estende até a “undécima hora” (Mt 20.6), mostrando que nunca é tarde para responder ao Seu convite. Como Paulo exorta em Efésios 5.16, devemos “remir o tempo”, aproveitando cada oportunidade para viver conforme a vontade do Senhor.

Conclusão

Compreender como o tempo era contado na época de Jesus nos ajuda a ler a Bíblia com mais clareza. Mas, acima de tudo, nos lembra que o tempo não é apenas uma medida humana: é um dom de Deus. Cabe a nós vivermos cada hora como oportunidade de fé, serviço e esperança.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O Evangelho e o Esquadro: Por que a Fé Cristã é Incompatível com a Maçonaria

19.12.2025
Postado por pastor Irineu Messias

Introdução

Ao longo da história do protestantismo no Brasil, um tema tem gerado debates acalorados e divisões profundas: a relação entre a igreja e a maçonaria. Embora muitos tentem conciliar a caminhada cristã com os ritos das lojas maçônicas, um olhar atento às Escrituras e à própria história das denominações revela um abismo intransponível. O que começou como uma aliança estratégica no século XIX tornou-se um fardo espiritual que muitas igrejas ainda lutam para remover de seu meio. Este artigo explora as raízes históricas dessa união, a evolução das decisões eclesiásticas e, acima de tudo, a gritante contradição entre os pilares da Reforma Protestante e o esoterismo maçônico.

Uma Herança Traída: A Contradição com os Pilares da Reforma

Existe uma contradição dolorosa na história da Igreja Presbiteriana no Brasil. Como uma das herdeiras da Reforma Protestante, essa denominação nasceu da resistência contra as heresias e tradições humanas do catolicismo que obscureciam o Evangelho. No entanto, por mais de um século, essa mesma linhagem reformada demonstrou uma "flacidez espiritual" ao permitir que heresias maçônicas coexistissem em seu seio. Ao aceitar membros e oficiais vinculados à ordem, a prática eclesiástica caminhou na contramão das cinco Solas, que são o fundamento da fé protestante:

  • Sola Scriptura (Somente a Escritura): Enquanto a Reforma ensina que a Bíblia é a única autoridade final, na maçonaria ela é tratada como um mero símbolo ou peça de mobiliário, podendo ser substituída por qualquer outro livro sagrado.
  • Sola Fide e Sola Gratia (Somente a Fé e a Graça): A maçonaria prega que o homem é aperfeiçoado por seus próprios esforços e ensinos filosóficos para entrar na "Loja Celestial", uma clara doutrina de salvação pelas obras que anula o sacrifício de Cristo e a gratuidade da graça.
  • Solus Christus (Somente Cristo): Nas lojas, Jesus não é reconhecido como o único mediador; as orações não são feitas em seu nome para não "ofender" seguidores de outras divindades.
  • Soli Deo Gloria (Somente a Deus a Glória): Ao cultuar o "Grande Arquiteto do Universo" — um conceito vago que pode representar qualquer divindade como Alá ou Shiva — a glória que pertence exclusivamente ao Deus Triuno é diluída em um panteão universalista.

As Raízes de uma Aliança por Conveniência

A entrada da maçonaria nas igrejas evangélicas brasileiras ocorreu por um contexto político turbulento no século XIX. Com a unificação da Itália, o Papa rompeu com a maçonaria, proibindo católicos de participarem da ordem. No Brasil, a elite maçônica buscou refúgio nas igrejas protestantes para ganhar força contra a hegemonia católica. Muitos missionários americanos, já influenciados pela maçonaria em seu país, facilitaram essa entrada, chegando a pregar dentro de lojas maçônicas em São Paulo. Esse "cadastro do diabo" infiltrou-se por falta de opção dos maçons e por uma busca de proteção política por parte dos protestantes.

O Longo Caminho das Resoluções e a Cisão de 1903

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) levou décadas para enfrentar o problema. Em 1900, o Sínodo decidiu que o crente era livre para ser maçom, o que gerou uma cisão histórica em 1903. Um grupo descontente com essa omissão fundou a Igreja Presbiteriana Independente (IPI), que já nasceu proibindo a maçonaria. Somente em 1994, uma comissão paritária foi formada para estudar a incompatibilidade doutrinária. O Reverendo Hernandes Dias Lopes teve um papel fundamental nessa comissão, lutando pela pureza da igreja mesmo diante de tradições familiares, já que seu próprio pai teria sido mestre maçom. Finalmente, em 2006, a IPB aprovou uma resolução declarando a incompatibilidade oficial entre a fé cristã e a maçonaria, mas ainda permite os que já são membros, diáconos, presbíteros, pastores maçons, a exercerem seus ofícios e continuarem membros da igreja, inclusive participando normalmente da Santa Ceia do Senhor.

A Firmeza Histórica da Assembleia de Deus

Diferente das igrejas históricas que atravessaram séculos de ambiguidades, a Assembleia de Deus sempre manteve uma posição de rejeição absoluta e firme contra a maçonaria. Desde suas raízes pentecostais, a denominação identificou que a natureza secreta e os ritos de iniciação — onde o candidato afirma vir "das trevas para a luz" — são uma afronta a quem já foi iluminado pelo Espírito Santo. Nas Assembleias de Deus, a separação entre o altar e a loja maçônica sempre foi clara, tratando o envolvimento com sociedades secretas como uma prática incompatível com a transparência e a exclusividade do senhorio de Cristo. 

Se algum membro das Assembleias de Deus no Brasil pertencer à maçonaria, pertencerá de forma oculta, visto que a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) estabelece claramente sua posição sobre a maçonaria na Declaração de Fé das Assembleias de Deus, publicada oficialmente em 2017. No capítulo sobre A Igreja e a Sociedade, há uma seção específica que trata da incompatibilidade entre a fé cristã e a maçonaria.

A Declaração afirma:

“A Assembleia de Deus não aprova o envolvimento de seus membros com sociedades secretas, como a maçonaria, por serem incompatíveis com os princípios bíblicos e doutrinários da fé cristã.”

Conclusão

A história revela que a tolerância à maçonaria foi uma mancha na herança reformada brasileira, uma tentativa de servir a dois senhores que durou tempo demais. O rompimento radical, embora tardio em muitas frentes, é necessário porque a luz não pode ter comunhão com as trevas. Como uma bússola que só funciona se estiver livre de interferências metálicas, a fé cristã só pode guiar o crente se estiver livre do sincretismo e do esoterismo das lojas. A igreja deve, finalmente, honrar as Solas de seus antepassados, proclamando que somente a Escritura, somente a Graça e somente Cristo são suficientes para a vida e para a eternidade.

Nota: Artigo produzido(com acréscimos do editor do blog) com base no vídeo do canal CACP APOLOGÉTICA, do pastor Martinez. Clique aqui e assista o vídeo  

O Fantasma de John Brown no Brasil: Quando o Zelo pela "Causa" Atropela o Genuíno Evangelho de Cristo

19.12.2025

Postado por pastor Irineu Messias(Artigo atualizado em 22.12.2025)

Introdução: A Justiça que se Torna Ídolo

O Brasil vive um tempo de paixões extremas. No centro desse turbilhão, muitos cristãos evangélicos têm abandonado a mansidão de Cristo em favor de uma retórica de confronto. O personagem histórico John Brown (1800-1859) serve como um espelho de advertência: ele era um homem que amava a justiça, mas que permitiu que esse amor se transformasse em um ídolo violento.

Hoje, ao ouvirmos frases como "bandido bom é bandido morto" ou ao vermos o apoio a atos de vandalismo e golpes em nome de Deus, percebemos que o erro de Brown — o de achar que a causa justifica o pecado — continua vivo em nossos púlpitos e redes sociais.

1. "Bandido bom é bandido morto" vs. O Coração do Pai

John Brown acreditava que a morte dos escravagistas era o único caminho para a justiça. No Brasil atual, a teologia do extermínio substituiu a teologia da regeneração. Suas ações em muito se parecem, se adaptado com o bordão atual: " escravista bom é escravista morto".

Biblicamente, porém, o veredito de Deus é outro: “Desejaria eu, de qualquer modo, a morte do ímpio? diz o Senhor Deus; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” (Ezequiel 18:23). Quando um cristão clama pela morte de alguém, ele está usurpando o lugar do Juiz Eterno e negando o poder transformador do Evangelho. Se acreditamos que "bandido bom é morto", estamos admitindo que o sacrifício de Jesus não é suficiente para salvar o "pior dos pecadores".

2. O Erro da Invasão e da Depredação: O Reino não é deste Mundo

Assim como John Brown tentou assaltar um Forte Militar (Harpers Ferry) para forçar uma mudança social através das armas, vimos recentemente cristãos evangélicos brasileiros invadindo e depredando prédios públicos sob o pretexto de "salvar a nação".

O apóstolo Paulo, escrevendo sob o domínio do terrível Império Romano, instruiu: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores” (Romanos 13:1). A desordem, o caos e o vandalismo não são frutos do Espírito, mas obras da carne (Gálatas 5:19-21). Defender golpes de Estado ou depredar o patrimônio público em nome de uma ideologia é uma afronta direta ao princípio bíblico de submissão e ordem. Deus não é autor de confusão, mas de paz (1 Coríntios 14:33).

3. A Língua que Amaldiçoa: Um Veneno no Corpo de Cristo

Brown amaldiçoava seus oponentes antes de executá-los. No cenário brasileiro, o hábito de amaldiçoar autoridades, opositores políticos e "inimigos da fé" tornou-se comum.

Tiago 3:9-10 nos confronta severamente: “Com ela [a língua] bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus... Meus irmãos, não convém que isto se faça assim”. Um cristão que usa o nome de Deus para proferir maldições e ódio político está com a fonte de sua espiritualidade contaminada. O mandamento de Cristo é claro: “Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis” (Romanos 12:14).

4. Ideologia vs. Evangelho: A Mistura Mortal

O maior erro de John Brown foi fundir sua fé com uma militância armada radical. Hoje, o risco é a "ideologização" da fé, onde a Bíblia é lida através das lentes de um partido, de uma ideologia ou de um líder político.

Ademais, ideologias (qualquer que seja ela), partidos ou líderes não têm compromisso com os valores do Reino de Deus. O foco destes sempre foi, é, e sempre será a busca pelo poder; e se puder usar a religião (qualquer seja ela, inclusive a cristã, evangélica, católica, etc.), dela fará uso até quando lhes for conveniente. Ainda que, se for preciso, "converte-se" a algumas delas para alcançar seus objetivos.

Tradução: "Eu, John Brown, estou bem certo de que os crimes desta terra culpada nunca serão expiados senão com sangue." John Brown, 1859

Cristãos que adotam tal postura estão apregoando um "outro evangelho", cujos ensinos apenas "parecem" com os do verdadeiro Evangelho de Cristo. É por esta razão que a Palavra de Deus severamente adverte:

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." Gálatas 1:8,9

Neste sentido, tem sido usado sem muito alarde e subrepticiamente um conceito pouco conhecido, a agnotologia, que segundo o seu formulador, o professor da Universidade de Stanford, Califórnia, professor Robert N. Proctor, em 1995, pode ser compreendida assim: refere-se ao estudo cultural da ignorância, isto é, às formas pelas quais o desconhecimento é criado, mantido ou explorado intencionalmente por indivíduos, grupos ou instituições. 

No contexto religioso, isso ocorre quando ideologias, ou movimentos políticos utilizam narrativas simplistas, ou distorcidas para reinterpretar textos sagrados, promovendo uma leitura que serve aos seus próprios interesses. Tal prática cria uma "ignorância programada", onde o verdadeiro significado do Evangelho é obscurecido por agendas externas, levando muitos cristãos a abraçarem causas que contradizem os valores do Reino de Deus.

Quando um crime é cometido — seja ele de ódio, de invasão, de traição ou ao incitamento à convulsão social — e se tenta justificá-lo "em nome de Deus", estamos cometendo o pecado de tomar o Seu santo nome em vão. Jesus recusou o caminho do poder político romano e o caminho da espada dos zelotes. Seu Reino é de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, não de bombas, invasões ou discursos de ódio.

Conclusão: De Volta ao Caminho Estreito

John Brown foi enforcado por seus crimes, mas acreditando ser um mártir, no entanto, a história o recorda como um homem que, embora tivesse uma causa nobre, escolheu o caminho errado para defendê-la. O Brasil cristão precisa decidir se seguirá o exemplo de Brown — o da força carnal e do "sangue pelo sangue" — ou o exemplo de Jesus — o do amor sacrificial e da obediência à  Sua Palavra.

Não podemos "salvar a família" destruindo o próximo. Não podemos "defender a liberdade" atacando as instituições, responsáveis por defendê-la. E, definitivamente, não podemos chamar Jesus de Senhor se nos recusamos a amar nossos inimigos. Que a igreja brasileira se arrependa de seu zelo sem entendimento e retorne à simplicidade e à mansidão do Evangelho.

Fonte Histórica sobre John Brown:

Carton, Evan. "Patriarch: John Brown and the American Civil War". University of Nebraska Press, 2006. (Análise sobre a radicalização religiosa e política de Brown).

John Brown (abolicionista)




Proctor, Robert N;SCHIEBINGER, Londa(orgs). The Making and Unmaking of Ignorance

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Brown_(abolicionista)