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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Por que deixei de ser calvinista (Parte 1): O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história

09.01.2026

Do blog ORTHODOXY AND HETERODOXY, 09.01.2014

Por Robin Phillips

Introdução

Minha esposa e eu éramos calvinistas (ou "reformados", como gostávamos de dizer) e queríamos que nossos filhos crescessem da mesma forma. Frequentávamos uma igreja calvinista e ensinávamos teologia reformada aos nossos filhos. No entanto, a partir de 2012, começamos a nos sentir cada vez mais desconfortáveis ​​com os principais princípios doutrinários dessa perspectiva.

Ainda respeitamos o calvinismo e esperamos preservar muitos de seus pontos fortes em nossa vida familiar. No entanto, chegamos à conclusão de que a teologia reformada se baseia em fundamentos não bíblicos, que acrescenta algo ao evangelho e que, inadvertidamente, incorpora diversas crenças heterodoxas. Na série de publicações a seguir, identificarei cinco desses fundamentos falhos do calvinismo.

Antes de iniciar a discussão sobre os cinco pontos em que o calvinismo falha, é importante esclarecer que estou falando aqui sobre o "calvinismo" em geral, e não especificamente sobre os ensinamentos de João Calvino. É importante manter essa distinção, visto que há debate sobre se Calvino era de fato calvinista. No entanto, acredito que existam bons motivos para afirmar alguma continuidade entre os ensinamentos de Calvino e os tipos de ideias que criticarei, mas essa é, em última análise, uma questão histórica que está além do escopo desta discussão.

Os 5 pontos que irei explorar são os seguintes:

  • O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história.
  • O calvinismo destrói a justiça de Deus.
  • O calvinismo distancia Deus da nossa experiência com Ele.
  • O calvinismo ensina a heresia do monergismo.
  • O calvinismo apresenta uma cristologia deformada.

Para este primeiro ponto de discussão, sugiro que a abordagem calvinista das escrituras está radicalmente desconectada do contexto histórico em que a Bíblia foi escrita.

Uma Bíblia Desistoricizada

Na segunda metade do século XX, houve grandes avanços em nossa compreensão do judaísmo do primeiro século, em grande parte como resultado da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e de toda a pesquisa que ela gerou. Essas descobertas nos proporcionaram uma apreciação muito melhor dos tipos de debates teológicos que fervilhavam na época do apóstolo Paulo. Isso significa que estamos em uma posição melhor para reconstruir cuidadosamente os tipos de argumentos que os oponentes judeus de Paulo provavelmente usavam contra o evangelho de Cristo.

Ao analisarmos esses estudos, torna-se cada vez mais evidente que os debates tradicionais entre calvinistas e não calvinistas sobre temas como predestinação e depravação total simplesmente não existiam na época de Paulo.

Quando deixamos de ler Paulo à luz dos debates posteriores entre Agostinho e os pelagianos, ou entre calvinistas e arminianos, e passamos a lê-lo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do Segundo Templo, torna-se evidente que, na maioria das passagens consideradas textos bíblicos padrão para o calvinismo, Paulo estava, na verdade, abordando as relações entre judeus e gentios e outras questões correlatas. Da mesma forma, muitas das passagens que imediatamente assumimos tratar de questões de salvação individual, na realidade, possuíam uma nuance mais relacionada à aliança, incluindo grande parte do arsenal de passagens prediletas do calvinismo. Tudo isso emerge à medida que reconstruímos cuidadosamente o contexto histórico de Paulo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do primeiro século.

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Para quem quiser aprofundar este assunto, recomendo o seguinte:

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Fonte: https://blogs.ancientfaith.com/orthodoxyandheterodoxy/2014/01/09/why-i-stopped-being-a-calvinist-part-1-calvinism-presents-a-dehistoricized-bible/

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

DOUTRINA DA SALVAÇÃO:Qual é a diferença entre Calvinismo e Arminianismo? Qual está certo?

14.01.2019
Do blog RESPOSTAS BÍBLICAS

O Calvinismo e o Arminianismo são duas correntes de pensamento dentro do Cristianismo que tentam explicar a relação entre a salvação, a soberania de Deus e o poder de escolha do homem. O Calvinismo se concentra mais na soberania de Deus e o Arminianismo foca mais no livre-arbítrio. A Bíblia fala sobre as duas coisas.

A origem do debate

O Calvinismo e o Arminianismo surgiram na mesma época. O Calvinismo é baseado nas ideias de um homem chamado João Calvino e o Arminianismo é baseado nos pensamentos de Jacó Armínio. Os seguidores desses dois homens entraram (e ainda entram) em conflito por causa das diferenças entre suas posições.

Quando o Calvinismo se estava tornando popular, os seguidores do Arminianismo escreveram sobre alguns pontos em que discordavam dos calvinistas. Estes, por sua vez, reafirmaram sua posição, em resposta. Começou assim um grande debate que tem durado alguns séculos.

Quais são as diferenças entre o Calvinismo e o Arminianismo?

A diferença principal entre o Calvinismo e o Arminianismo é sobre como a salvação funciona. O Calvinismo diz que nós não temos voto na matéria; o Arminianismo diz que podemos escolher.

O Calvinismo ensina que Deus é soberano sobre todas as coisas. Por isso, Ele escolhe quem Ele quer salvar (Efésios 1:4-6). Ninguém consegue se salvar por sua própria vontade, porque todos estamos presos no pecado. Mas Deus dá fé a alguns para que sejam salvos. Ninguém a quem Deus escolheu consegue resistir à salvação; todos serão obrigatoriamente salvos.

O Arminianismo aceita a soberania de Deus e o fato que ninguém consegue se salvar por esforço próprio. Deus nos oferece a salvação de graça mas também dá uma escolha a cada pessoa (Apocalipse 3:20). Ninguém é obrigado a crer e ser salvo.

Outra diferença é sobre quem Jesus veio salvar. O Calvinismo ensina que Jesus morreu apenas para salvar os eleitos, que Deus escolheu para terem fé. O Arminianismo ensina que Jesus morreu por todas as pessoas mas apenas quem crer será salvo.


Atenção: A maioria dos calvinistas não acredita que somos “fantoches” de Deus. Eles aceitam que temos poder para fazer escolhas mas não em relação à salvação. A maioria dos seguidores do Arminianismo também não acredita que somos salvos por obras ou mérito. Eles aceitam que a salvação vem toda de Deus; apenas temos o poder para rejeitar essa salvação.

Entre os calvinistas os defensores do Arminianismo também há debate sobre se é possível que um crente perca a salvação. O Calvinismo diz que é impossível; o Arminianismo diz que talvez seja possível mas não há certezas.

Veja também: o que é Arminianismo?

Qual está certo?

Não há uma resposta clara para essa pergunta. A Bíblia diz que Deus é soberano sobre todas as coisas mas que nós também temos liberdade para fazer escolhas. Nada acontece sem a permissão de Deus mas as pessoas também fazem coisas que Deus não quer.

A questão da salvação é parecida com a questão da galinha e do ovo. Qual veio primeiro? A vontade de Deus ou a fé? A Bíblia não responde! Deus não está limitado às regras do tempo, a antes e depois. Ele é eterno e pode andar para trás, para frente e em qualquer direção no tempo. Será que faz sentido tentar explicar a ação de Deus em termos temporais?

A Bíblia diz que Deus está no controle de tudo. Mas, em Sua soberania, Ele nos permite tomar escolhas. Somos advertidos a não rejeitar a salvação que Deus nos oferece mas também somos assegurados que Deus nos vai guardar na fé (Hebreus 3:12; João 10:28).

Em outras coisas, é impossível declarar que um dos lados está certo, porque a Bíblia não esclarece. Por exemplo, João 3:16 pode ser usado para provar que Jesus só morreu pelos eleitos que crêem ou que Jesus morreu por todos mas apenas os que crêem são salvos. O versículo apenas diz que os que crêem em Jesus serão salvos.

Infelizmente, muitas vezes acontece que uma pessoa que parece ter fé abandona Jesus. Segundo o Calvinismo, essa pessoa nunca teve fé verdadeira, por isso não era mesmo salva. De acordo com o Arminianismo, isso talvez poderia ser uma prova que é possível perder a salvação, se uma pessoa realmente quer rejeitar Jesus.

A Bíblia diz que algumas pessoas provam de Jesus mas depois o rejeitam (Hebreus 6:4-6). Ela não diz se essas pessoas eram salvas ou não. No fim, o que realmente conta é a eternidade.
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Fonte:https://www.respostas.com.br/calvinismo-e-arminianismo-diferencas/

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA ARMINIANA E WESLEYANA

07.11.2017
Do BLOG DO PASTOR ALTAIR GERMANO, 26.01.15
Por Pr. Altair Germano

Diversas denominações evangélicas no Brasil não são adeptas da teologia reformada calvinista no que diz respeito ao entendimento da doutrina da salvação. A soteriologia de tais denominações reproduz ou se aproxima da teologia arminiana clássica e da teologia wesleyana.

O calvinismo é a tradição teológica da qual o reformador protestante João Calvino (1509-1564) é o proponente mais famoso.[1] Já o arminianismo clássico é oriundo do movimento de oposição à perspectiva de salvação dos reformados calvinistas, que foi iniciado pelo teólogo e pastor Holandês Jacó Armínio (1569-1609).[2]

A tradição reformada calvinista e a tradição reformada arminiana clássica possuem diversos pontos em comum no campo teológico, mas divergem consideravelmente acerca da doutrina da salvação, chegando nesse aspecto ao nível da incompatibilidade. Neste artigo daremos ênfase nas diferentes perspectivas de como a graça de Deus age sobre a vida do perdido pecador.

Arminianos clássicos e calvinistas concordam no fato de que o pecado afetou todos os aspectos da personalidade humana, inclinando-nos à rebelião e ao mal, tornando-nos completamente indispostos a nos submeter a Deus à Sua boa, perfeita e agradável vontade. Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1). Trata-se aqui da depravação total do homem caído.

As diferenças entre os arminianos clássicos e wesleyanos, dos pensadores calvinistas, surgem no entendimento de como Deus trata com os pecadores nessa condição. Do ponto de vista arminiano clássico:

[...] Deus estende graça suficiente para todas as pessoas através do Espírito Santo, para opor-se à influência do pecado e capacitar uma resposta positiva a Deus (Jo 15.26-27; 16.7-11). A iniciativa aqui é inteiramente da parte de Deus; o papel do pecador é simplesmente responder em fé e grata obediência (Lc 15; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5; Fp 2.12-13). Todavia, os pecadores podem resistir à iniciativa de Deus, e persistir no pecado e rebelião. Em outras palavras, a graça de Deus capacita e encoraja uma resposta positiva e salvífica para todas as pessoas, mas ela não determina uma resposta salvífica para ninguém (At 7.51). Além disso, uma resposta positiva inicial de fé e obediência não garante a salvação final de alguém. É possível iniciar um relacionamento genuíno com Deus, mas então, posteriormente, se afastar Dele, e persistir no mal de sorte que a pessoa, por fim, se perca (Rm 8.12-13; 11.19-22; Gl 5.21; 6.7-10; Hb 6.1-8; Ap 2.2-7).[3]

Passaremos a observa como Armínio e Wesley lidaram com a graça preveniente.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE ARMÍNIO

O posicionamento de Armínio sobre a graça preveniente foi registrado em suaDeclaração de Sentimentos:

Eu atribuo à graça o começo, a continuidade e a consumação de todo bem, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e estimulante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que, de maneira nenhuma, eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. Em se tratando dessa questão, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.[4]

Para Armínio, a salvação pessoal é um ato da iniciativa da graça de Deus, mas que não é irresistível.

Após a morte de Armínio, quarenta e seis ministros holandeses elaboraram um documento chamado de “Remonstrância” (protesto), onde reafirmaram os conceitos de Armínio. Em seu Artigo III, enfatizando a depravação total do homem afirma:

Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom, segundo a Palavra de Deus [Jo 15.5].[5]

Sobre a possibilidade da graça preveniente ser resistida, foi escrito no Artigo IV do mesmo documento que:

Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.[6]

O pensamento de Armínio reverberou ao longo dos anos encontrando guarida em diversos arcabouços teológicos.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE WESLEY

John Wesley (1703-1791), o grande teólogo e pregador inglês, pai do metodismo, movimento que influenciou o surgimento do pentecostalismo clássico, entendia a salvação do homem nos moldes do arminianismo clássico:

A graça opera diante de nós para nos atrair em direção à fé, para iniciar sua obra em nós. Até mesmo a primeira e frágil intuição da convicção do pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é a obra da graça preparadora e antecedente à beira do nosso desejo, trazendo-nos em tempo de afligirmo-nos sobre nossas próprias injustiças, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente cessam de resistir ao dom de Deus.[7]

Sobre o estado de depravação humana Wesley comenta:

O homem, por natureza, é repleto de todo o tipo de maldade? É vazio de todo o bem? É totalmente caído? Sua alma está totalmente corrompida? Ou, para fazer o teste ao contrário, “toda imaginação dos pensamentos de seu coração [é] só má continuamente”? Admita isso, e até aqui você é um cristão. Negue isso, e você ainda é um pagão.[8]

Em seu sermão “O caminho para o Reino”, diz: Você é corrompido em cada poder, em cada faculdade de sua alma, por ser corrompido em cada um desses aspectos, toda fundação do seu ser está fora de curso.[9] Em outro sermão intitulado “A Falsidade do Coração Humano” enfatiza que: “No coração de todo filho de homem há um fundo inexaurível de maldade e injustiça, enraizado de forma tão profunda e firme na alma que nada, a não ser a graça toda-poderosa, pode curar isso.[10]

Diversos estudiosos da teologia de John Wesley reafirmaram o seu pensamento soteriológico arminiano clássico:

Em termos de contribuições mais modernas, George Croft Cell, no início do século XX, sustentou que Wesley, na verdade, “planta seus pés igualmente nas pegadas deixadas por Paulo, Agostinho, Lutero e Calvino”. Willian Cannon, fazendo uma declaração semelhante, afirma que Wesley, o teólogo arminianista, “percorre todo o caminho com Calvino, com Lutero e com Agostinho em sua insistência de que o homem é, por natureza, totalmente destituído de justiça e está sujeito ao julgamento e à ira de Deus” [...].[11]

As conclusões que se podem obter, conforme Richard Taylor, é que:

Jacó Armínio e John Wesley eram totalmente agostinianos nos seguintes aspectos: (a) a raça humana é universalmente depravada como resultado do pecado de Adão; (b) a capacidade do homem de querer o bem está tão debilitada que requer a ação da graça divina para que possa alterar seu curso e ser salvo.[12]

No que diz respeito ao entendimento sobre a operação da graça na vida do homem perdido e morto em seus delitos e pecados, assim como Armínio, Wesley diverge de Agostinho e dos reformistas do século XVI, defendendo que a graça preveniente, fundamentada na obra salvífica de Jesus Cristo, opera na restauração do livre-arbítrio, de maneira sobrenatural, pelo Espírito Santo, em todas as pessoas; as quais, à parte dessa restauração, do ponto de vista soteriológico, não são livres. Dessa forma, Wesley se afasta tanto do semipelagianismo católico romano que nega a total depravação humana, quanto do determinismo de Wittenberg e Genebra que elimina a responsabilidade moral do homem na aceitação ou na rejeição da oferta de salvação mediante a graça preveniente.[13]

Sobre a ideia de graça irresistível, Wesley não defende tal realidade no que se refere aos aspectos do chamado ou oferta para a salvação, mas ao restabelecimento das faculdades humanas que estabelecem o equilíbrio e responsabilidade individuais:

Mais uma vez, a graça preveniente não é irresistível no sentido de que a personalidade é aniquilada nem de que já existe um “eu” responsável viável que apenas é suprido com as faculdades. Antes, essa graça é necessária, na verdade, é imprescindível no melhor sentido do termo “antecedência” a fim de produzir no ser um “eu” responsável, em parte, precisamente pela restauração das faculdades. Simplificando, o princípio do processo da salvação não requer a graça cooperante (a essa altura, uma impossibilidade total), mas a graça livre, a atividade apenas de Deus.[14]

CONCLUSÃO

Torna-se assim evidente, que a doutrina da graça preveniente de Armínio e Wesley concorda com a concepção de depravação total e salvação somente pela graça, conforme Lutero e Calvino, mas discorda no sentido de que Deus predestinou poucos homens para a salvação, deixando a maior parte da humanidade na condenação do inferno eterno, de que a graça salvadora é irresistível, e que é direcionada apenas aos eleitos:

A eleição de Deus é um ato incondicional da graça livre, dada por meio de seu filho Jesus, antes de o mundo existir. Por meio deste ato, Deus escolheu, antes da fundação do mundo, aqueles que seriam libertos da escravidão ao pecado e levados ao arrependimento e à fé salvadora em Jesus.[15]

Sobre a ideia da graça irresistível na teologia reformada calvinista, lemos:

Isto significa que a resistência que todos os seres humanos exercem cada dia contra Deus (Rm 3.10-12, At 7.51) é vencida maravilhosamente, no tempo próprio, pela graça salvadora de Deus, em favor de rebeldes indignos, os quais ele escolhe salvar espontaneamente. [16]

Na perspectiva calvinista, para tornar a graça irresistível, Deus age mudando a nossa vontade, sem necessariamente agir contra a nossa vontade.[17] Com certeza, um argumento insustentável à luz da doutrina bíblica da salvação, e da responsabilidade moral do homem enquanto um ser livre.

O conhecido apelo evangelístico que diz “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”, não se sustenta à luz do arminianismo clássico e do pensamente wesleyano. Tal apelo é norteado pelo arminianismo de cabeça[18] e arminianismo contemporâneo[19], que são essencialmente semipelagianos, e que acreditam que o homem não se encontra no estado de depravação total, podendo de alguma maneira tomar a iniciativa de buscar a Deus e de conseguir a sua salvação pessoal.

É também infundada e falsa a acusação calvinista de que o arminianismo clássico defende a ideia de que o homem após a queda não se tornou totalmente depravado, de que pode escolher o bem espiritual, e de exercer fé em Deus de maneira a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo.[20]

Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus, que abre o entendimento humano para a verdade do Evangelho, e que afrouxa as rédeas do poder do pecado. Somente a operação da graça preveniente torna o homem capaz de crer e aceitar o dom gratuito de Deus, que é a vida eterna em Cristo Jesus (Ef 2.1-10), ou de livremente rejeitá-lo, tornando-se assim moralmente responsável por tais decisões.

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB.



[1] WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 12.
[2] OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p.
[3] WALLS, Jerry L.; DONGEL, Joseph R. Ibid., p. 14.
[4] ARMINIUS, A Declaration of Sentiments, Works. V. 1, p. 664 apudOLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 210.
[5] Cinco Artigos da Remonstrância. Wikipédia.org, acesso em 26/01/2015.
[6] Ibid.
[7] Oden, Thomas C. John Wesley´s Scriptural Christianity. Grand Rapids: Zondervan, 1994, p. 246 apud OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 219.
[8] Outler, Sermons, p. 2:179 apud COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 97.
[9] Ibid.
[10] Ibid.
[11] Ibid., p. 99.
[12] Ibid.
[13] Ibid., p. 105.
[14] Ibid., p. 109.
[15] PIPER, John. Cinco Pontos: em direção a uma experiência mais profunda da graça de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 17.
[16] Ibid., p. 18
[17] Ibid., p. 39.
[18] O arminianismo de cabeça possui uma ênfase no livre-arbítrio que está alicerçada no iluminismo e é mais tarde comumente encontrado nos círculos protestantes liberais [...]. Sua marca característica é uma antropologia otimista que nega a depravação total e a absoluta necessidade de graça sobrenatural para a salvação. É otimista acerca da habilidade de seres humanos autônomos em exercerem uma boa vontade para Deus e seus semelhantes sem a graça preveniente (capacitadora, auxiliadora) sobrenatural, ou seja, é pelagiano ou no mínimo semipelagiano. (OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 23.)
[19] Talvez a fraqueza mais séria do arminianismo contemporâneo seja a sua visão de pecado Com muita frequência, os arminianos restringem o problema do pecado para a questão da culpa, amplamente entendido como uma (mera) sujeição a um julgamento futuro. O evangelismo arminiano, portanto, frequentemente foca unicamente na oferta de perdão para evitar essa ameaça, apresentando seu convite com a presunção de que a platéia goza de liberdade da vontade, julgamento relativamente equilibrado, e uma abertura para considerar, de maneira imparcial, a mensagem do Evangelho. Por conseguinte, o fator mais importante para determinar o grau de sucesso no evangelismo é o poder do evangelista, que em lógica, persuasão ou charme pessoal. Tal pensamento arminiano contemporâneo surgiu nas gerações subseqüentes a Wesley, e em especial no metodismo estadunidense. (WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 64.
[20] SEATON, W. J. Os cinco pontos do calvinismo. 3.ed. São Paulo: PES, 2012, p.4-5.
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Fonte:http://www.altairgermano.net/2015/01/a-graca-preveniente-na-teologia.html

DOUTRINA DA SALVAÇÃO: Sinergismo não é semipelagianismo

07.11.2017
Do blog MINISTÉRIO APOLOGÉTICO, 24.04.17
Por Marc Cortez*
salvado do pecado
Frequentemente ouço pessoas insinuarem que dizer que os seres humanos “cooperam” com a graça de Deus em um processo de salvação (sinergismo) é essencialmente a mesma coisa que a heresia do semipelagianismo; isto é, a ideia de que o esforço humano tem ao menos uma parte de responsabilidade ao iniciar o processo da salvação. Implícito por trás desta afirmação parece estar a ideia de que qualquer coisa que não seja monergismo está na fronteira da heresia. Não é bem uma heresia escancarada (pelagianismo), mas bem próximo (semipelagianismo).
Existem tanto razões históricas quanto teológicas para rejeitar esta afirmação. Historicamente, deveríamos pelo menos reconhecer que o semipelagianismo foi um movimento que surgiu depois da época de Pelágio, estava principalmente associado com certos grupos monásticos no 5º e 6º séculos e foi condenado como herético no Segundo Concílio de Orange (529 d.C.). Portanto, historicamente, chamar alguém de semi-pelagiano seria chama-lo de herético – não apenas quase herético.
Teologicamente não é verdade que os sinergistas são necessariamente semipelagianos. E aqui se torna muito importante definirmos os nossos termos.
Pelagiano: qualquer sistema em que o ser humano seja capaz de alcançar a salvação inteiramente por si mesmo sem a assistência divina, além da graça comum (isto é, a graça necessária para que qualquer ser exista). Além do fato que o pelagianismo negou o pecado original.
Semipelagianismo: qualquer sistema em que o processo de salvação seja iniciado pelo ser humano sem assistência da graça, a não ser da graça comum, mas no qual o processo de salvação é sinergicamente completado pela interação cooperativa divina e humana.
Sinergismo: qualquer sistema que afirme algum tipo de cooperação interativa divina e humana no processo da salvação.
Baseado nestas definições, podemos chegar às seguintes conclusões:
  • Pelagianos não são sinergista: De acordo com sua visão, a salvação é obtida apenas pelo ser humano.
  • Semipelagianos são sinergistas: Para eles, o processo da salvação requer a interação cooperativa tanto divina quanto humana.
  • Sinergistas não são pelagianos e não são necessariamente semipelagianos: é totalmente possível declarar a interação cooperativa divina e humana e ao mesmo tempo afirmar que o processo de salvação inicia-se inteiramente pela graça salvífica de Deus (não a graça comum). Por exemplo, a ideia de graça “preveniente” afirma que nenhum ser humano é capaz de iniciar a salvação, mas que a graça de Deus “precede” e capacita os seres humanos a responderem corretamente. Independentemente da sua opinião sobre esta visão, ela afirma tanto que a graça de Deus inicia a salvação (“precede”) como também que a pessoa humana deve cooperar ao responder. Portanto, é sinergístico, porém não é pelagiano e nem semi-pelagiano.
Usando estas (breves) definições, podemos dizer que muitas soteriologias proeminentes são sinergísticas, mas não semipelagianas (por exemplo: Wesleyanos). Quando teólogos fazem generalizações dizendo que todos os sinergistas são semipelagianos, questionam a ortodoxia de grandes segmentos do cristianismo, incluindo quase todos os Pais da Igreja. (clique aqui e leia)
Entenda este artigo como um apelo a todos os monergistas. Por favor, pare de afirmar que o sinergismo é simplesmente semipelagianismo. Esta afirmação não é histórica nem teologicamente correta.
http://marccortez.com/2010/11/20/synergism-is-not-semi-pelagianism/#comments
*Marc Cortez: Prof de teologia de Wheaton College, marido, pai e blogueiro que ama teologia, história da igreja, cultura pop, livros e a vida em geral.
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Fonte:http://www.cacp.org.br/sinergismo-nao-e-semipelagianismo/