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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Por que deixei de ser calvinista (Parte 1): O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história

09.01.2026

Do blog ORTHODOXY AND HETERODOXY, 09.01.2014

Por Robin Phillips

Introdução

Minha esposa e eu éramos calvinistas (ou "reformados", como gostávamos de dizer) e queríamos que nossos filhos crescessem da mesma forma. Frequentávamos uma igreja calvinista e ensinávamos teologia reformada aos nossos filhos. No entanto, a partir de 2012, começamos a nos sentir cada vez mais desconfortáveis ​​com os principais princípios doutrinários dessa perspectiva.

Ainda respeitamos o calvinismo e esperamos preservar muitos de seus pontos fortes em nossa vida familiar. No entanto, chegamos à conclusão de que a teologia reformada se baseia em fundamentos não bíblicos, que acrescenta algo ao evangelho e que, inadvertidamente, incorpora diversas crenças heterodoxas. Na série de publicações a seguir, identificarei cinco desses fundamentos falhos do calvinismo.

Antes de iniciar a discussão sobre os cinco pontos em que o calvinismo falha, é importante esclarecer que estou falando aqui sobre o "calvinismo" em geral, e não especificamente sobre os ensinamentos de João Calvino. É importante manter essa distinção, visto que há debate sobre se Calvino era de fato calvinista. No entanto, acredito que existam bons motivos para afirmar alguma continuidade entre os ensinamentos de Calvino e os tipos de ideias que criticarei, mas essa é, em última análise, uma questão histórica que está além do escopo desta discussão.

Os 5 pontos que irei explorar são os seguintes:

  • O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história.
  • O calvinismo destrói a justiça de Deus.
  • O calvinismo distancia Deus da nossa experiência com Ele.
  • O calvinismo ensina a heresia do monergismo.
  • O calvinismo apresenta uma cristologia deformada.

Para este primeiro ponto de discussão, sugiro que a abordagem calvinista das escrituras está radicalmente desconectada do contexto histórico em que a Bíblia foi escrita.

Uma Bíblia Desistoricizada

Na segunda metade do século XX, houve grandes avanços em nossa compreensão do judaísmo do primeiro século, em grande parte como resultado da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e de toda a pesquisa que ela gerou. Essas descobertas nos proporcionaram uma apreciação muito melhor dos tipos de debates teológicos que fervilhavam na época do apóstolo Paulo. Isso significa que estamos em uma posição melhor para reconstruir cuidadosamente os tipos de argumentos que os oponentes judeus de Paulo provavelmente usavam contra o evangelho de Cristo.

Ao analisarmos esses estudos, torna-se cada vez mais evidente que os debates tradicionais entre calvinistas e não calvinistas sobre temas como predestinação e depravação total simplesmente não existiam na época de Paulo.

Quando deixamos de ler Paulo à luz dos debates posteriores entre Agostinho e os pelagianos, ou entre calvinistas e arminianos, e passamos a lê-lo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do Segundo Templo, torna-se evidente que, na maioria das passagens consideradas textos bíblicos padrão para o calvinismo, Paulo estava, na verdade, abordando as relações entre judeus e gentios e outras questões correlatas. Da mesma forma, muitas das passagens que imediatamente assumimos tratar de questões de salvação individual, na realidade, possuíam uma nuance mais relacionada à aliança, incluindo grande parte do arsenal de passagens prediletas do calvinismo. Tudo isso emerge à medida que reconstruímos cuidadosamente o contexto histórico de Paulo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do primeiro século.

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Para quem quiser aprofundar este assunto, recomendo o seguinte:

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Fonte: https://blogs.ancientfaith.com/orthodoxyandheterodoxy/2014/01/09/why-i-stopped-being-a-calvinist-part-1-calvinism-presents-a-dehistoricized-bible/

domingo, 14 de abril de 2019

"O que são Pelagianismo e Semipelagianismo?"

14.04.2019
Do portal GOT QUESTIONS


Resposta: Pelágio era um monge que viveu no fim do século 4 e início do século 5 D.C. Ele ensinava que os seres humanos nasciam inocentes, sem a mancha do pecado original e pecado herdado. Também acreditava que Deus criava diretamente toda alma humana e, portanto, toda alma era livre do pecado. Pelágio acreditava que o pecado de Adão não tinha afetado as gerações futuras da humanidade. Essa interpretação ficou conhecida como Pelagianismo.

O Pelagianismo contradiz muitas Escrituras e princípios bíblicos. Primeiro, a Bíblia nos ensina que somos pecadores no momento da concepção (Salmo 51:5). Além disso, a Bíblia ensina que todos os seres humanos morrem como resultado do pecado (Ezequiel 18:20; Romanos 6:23). Embora o Pelagianismo diga que os seres humanos não nascem com uma inclinação natural ao pecado, a Bíblia diz o contrário (Romanos 3:10-18). Romanos 5:12 claramente afirma que o pecado de Adão é a razão pela qual o pecado afeta o resto da humanidade. Qualquer pessoa que tenha tido filhos pode atestar ao fato de que bebês precisam ser ensinados a se comportarem; eles não precisam ser ensinados a pecar. O Pelagianismo, no entanto, é claramente anti-bíblico e deve ser rejeitado.

O Semipelagianismo essencialmente ensina que a humanidade é manchada pelo pecado, mas não ao extremo de não podermos cooperar com a graça de Deus com os nossos próprios esforços. Essa crença é, em essência, depravação parcial, ao invés de depravação total. As mesmas escrituras que refutam o Pelagianismo refutam o Semipelagianismo. Romanos 3:10-18 com certeza não descreve a humanidade como sendo apenas parcialmente manchada pelo pecado. A Bíblia claramente ensina que sem Deus fazendo com que certa pessoa se "aproxime" dEle, somos incapazes de cooperar com a graça de Deus. "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia" (João 6:44). Assim como o Pelagianismo, o Semipelagianismo é anti-bíblico e deve ser rejeitado.


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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

DOUTRINA DA SALVAÇÃO:Qual é a diferença entre Calvinismo e Arminianismo? Qual está certo?

14.01.2019
Do blog RESPOSTAS BÍBLICAS

O Calvinismo e o Arminianismo são duas correntes de pensamento dentro do Cristianismo que tentam explicar a relação entre a salvação, a soberania de Deus e o poder de escolha do homem. O Calvinismo se concentra mais na soberania de Deus e o Arminianismo foca mais no livre-arbítrio. A Bíblia fala sobre as duas coisas.

A origem do debate

O Calvinismo e o Arminianismo surgiram na mesma época. O Calvinismo é baseado nas ideias de um homem chamado João Calvino e o Arminianismo é baseado nos pensamentos de Jacó Armínio. Os seguidores desses dois homens entraram (e ainda entram) em conflito por causa das diferenças entre suas posições.

Quando o Calvinismo se estava tornando popular, os seguidores do Arminianismo escreveram sobre alguns pontos em que discordavam dos calvinistas. Estes, por sua vez, reafirmaram sua posição, em resposta. Começou assim um grande debate que tem durado alguns séculos.

Quais são as diferenças entre o Calvinismo e o Arminianismo?

A diferença principal entre o Calvinismo e o Arminianismo é sobre como a salvação funciona. O Calvinismo diz que nós não temos voto na matéria; o Arminianismo diz que podemos escolher.

O Calvinismo ensina que Deus é soberano sobre todas as coisas. Por isso, Ele escolhe quem Ele quer salvar (Efésios 1:4-6). Ninguém consegue se salvar por sua própria vontade, porque todos estamos presos no pecado. Mas Deus dá fé a alguns para que sejam salvos. Ninguém a quem Deus escolheu consegue resistir à salvação; todos serão obrigatoriamente salvos.

O Arminianismo aceita a soberania de Deus e o fato que ninguém consegue se salvar por esforço próprio. Deus nos oferece a salvação de graça mas também dá uma escolha a cada pessoa (Apocalipse 3:20). Ninguém é obrigado a crer e ser salvo.

Outra diferença é sobre quem Jesus veio salvar. O Calvinismo ensina que Jesus morreu apenas para salvar os eleitos, que Deus escolheu para terem fé. O Arminianismo ensina que Jesus morreu por todas as pessoas mas apenas quem crer será salvo.


Atenção: A maioria dos calvinistas não acredita que somos “fantoches” de Deus. Eles aceitam que temos poder para fazer escolhas mas não em relação à salvação. A maioria dos seguidores do Arminianismo também não acredita que somos salvos por obras ou mérito. Eles aceitam que a salvação vem toda de Deus; apenas temos o poder para rejeitar essa salvação.

Entre os calvinistas os defensores do Arminianismo também há debate sobre se é possível que um crente perca a salvação. O Calvinismo diz que é impossível; o Arminianismo diz que talvez seja possível mas não há certezas.

Veja também: o que é Arminianismo?

Qual está certo?

Não há uma resposta clara para essa pergunta. A Bíblia diz que Deus é soberano sobre todas as coisas mas que nós também temos liberdade para fazer escolhas. Nada acontece sem a permissão de Deus mas as pessoas também fazem coisas que Deus não quer.

A questão da salvação é parecida com a questão da galinha e do ovo. Qual veio primeiro? A vontade de Deus ou a fé? A Bíblia não responde! Deus não está limitado às regras do tempo, a antes e depois. Ele é eterno e pode andar para trás, para frente e em qualquer direção no tempo. Será que faz sentido tentar explicar a ação de Deus em termos temporais?

A Bíblia diz que Deus está no controle de tudo. Mas, em Sua soberania, Ele nos permite tomar escolhas. Somos advertidos a não rejeitar a salvação que Deus nos oferece mas também somos assegurados que Deus nos vai guardar na fé (Hebreus 3:12; João 10:28).

Em outras coisas, é impossível declarar que um dos lados está certo, porque a Bíblia não esclarece. Por exemplo, João 3:16 pode ser usado para provar que Jesus só morreu pelos eleitos que crêem ou que Jesus morreu por todos mas apenas os que crêem são salvos. O versículo apenas diz que os que crêem em Jesus serão salvos.

Infelizmente, muitas vezes acontece que uma pessoa que parece ter fé abandona Jesus. Segundo o Calvinismo, essa pessoa nunca teve fé verdadeira, por isso não era mesmo salva. De acordo com o Arminianismo, isso talvez poderia ser uma prova que é possível perder a salvação, se uma pessoa realmente quer rejeitar Jesus.

A Bíblia diz que algumas pessoas provam de Jesus mas depois o rejeitam (Hebreus 6:4-6). Ela não diz se essas pessoas eram salvas ou não. No fim, o que realmente conta é a eternidade.
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Fonte:https://www.respostas.com.br/calvinismo-e-arminianismo-diferencas/

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

DOUTRINA DA SALVAÇÃO: Compreendendo a Graça Preveniente

16.11.2017
Do portal CPADNEWS, 09.11.17
Por Valmir Nascimento

Valmir NascimentoNa soteriologia arminiana, a graça preveniente é uma doutrina essencial. Graça preveniente é o termo teológico que explica a forma como Deus capacita o homem previamente para que possa atender ao chamado da salvação. Assim como muitas outras doutrinas bíblicas, a exemplo da Trindade e da depravação total, o termo “graça preveniente” não se encontra expressamente[1] nas Escrituras, mas o ensino sim, visto tratar-se de uma categoria bíblica tácita, evidenciada por meio da interpretação sistemática do Texto Sagrado.
A graça preveniente está dentro do retrato maior das Escrituras, a partir da compreensão do trabalho divino para a salvação do homem[2]. Brian Shelton, com razão, afirma que a teologia sistemática examina cada doutrina à luz do maior testemunho das Escrituras para maior coerência ou correção. “Esta é a melhor maneira de testar a nossa interpretação de qualquer doutrina bíblica, incluindo o de nossa capacidade restaurada a crer em Cristo”[3].
Ao captar essa perspectiva H. Ray Dunning aponta, então, que a graça preveniente é “uma categoria teológica desenvolvida para capturar um motivo bíblico central”[4]. Ela é o resultado da análise cumulativa do texto bíblico, tendo como parâmetro as seguintes verdades: a Queda de Adão; a redenção proporcionada por Deus em Cristo; a incapacidade do homem de, e por si mesmo, voltar-se para Deus; a graça de Deus trazendo salvação a – todos –  os homens; o convite para que o homem se arrependa de seus pecados e creia (tenha fé) na obra de Cristo; a atuação de Deus para o convencimento e preparação do coração do pecador e; a possibilidade de resistência pelo homem.
Uma vez harmonizadas, essas verdades bíblicas deixam entrever a veracidade do conceito teológico da graça preveniente.
Etimologicamente, advém do latim gratia praevenians (prae = antes de + venire = venha), ou seja, “graça que vem antes”. Antes de quê? Antes de qualquer coisa no processo de salvação. Daí porque Jeff Paton recorda que muitos outros termos poderiam ser usados para descrever esta obra de Deus, como iniciativa divina, graça anterior e graça preparatória[5].
Em uma definição inicial, portanto, a graça preveniente é o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador e o capacita espiritualmente para que se arrependa e se converta a Cristo. Ela não salva por si só[6], mas apenas permite o arrependimento, criando uma condição favorável para que todos venham a crer (Jo 3.16).
O expositor bíblico Willian Burton Pope afirma que ela “é a única causa eficiente de todo o bem espiritual no homem; do começo, continuação e consumação da religião na alma humana”[7]. Roger Olson[8] expressa que a graça preveniente é a poderosa, porém resistível, atração de Deus para que o pecador se arrependa. Assim, uma pessoa é salva porque Deus iniciou uma relação e habilitou tal pessoa a responder livremente com arrependimento e fé. Desse modo, ninguém pode ser salvo sem o auxílio sobrenatural, do início ao fim, do Espírito Santo, bastando que a pessoa não lhe resista.
Em sua obra Prevenient Grace: God´s provision for fallen humanity, W. Brian Shelton diz que “a doutrina da graça preveniente fornece um link – uma solução – para a lógica desconexão entre a depravação espiritual humana e a necessidade de crer para a salvação”[9].
A graça preveniente, portanto, é o meio pelo qual Deus vai ao encontro do pecador para começar a obra da salvação, atraindo-o e capacitando-o espiritualmente para responder à obra divina. Tal doutrina bíblica ensina que em se tratando de salvação é Deus quem toma a iniciativa de chegar-se ao homem caído, e nunca o contrário, reconhecendo ao mesmo tempo tanto a total depravação humana quanto a possibilidade de o homem resistir a essa oferta graciosa.
Nesse sentido, Jacó Armínio tinha um profundo compromisso com a graça divina, e por isso atribuía a ela a causa principal das bênçãos espirituais. O exame das obras do teólogo holandês seria suficiente para afastar qualquer alegação de que ele teria defendido uma salvação baseada no mérito e na capacidade do livre arbítrio do homem. Armínio tinha total convicção bíblica e factual dos efeitos devastadores decorrentes da Queda no pecado e da completa incapacidade do homem de conseguir o favor divino, seja pensar, querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom, necessitando para tanto da benevolência prévia e contínua de Deus.
Em Declarações de Sentimentos ele escreve:
Mas em seu estado de descuido e pecado, o homem não é capaz de pensar, nem querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom; pois é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições e desejos, e em todos os seus poderes, por Deus, em Cristo, por intermédio do Espírito Santo, para que possa ser corretamente qualificado para entender, estimar, considerar, desejar e fazer aquilo que realmente seja bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, estando liberto do pecado, ele é capaz de pensar, de querer e fazer aquilo que é bom, mas ainda não sem a ajuda continuada da graça divina.[10]
Desta maneira, atribuo à graça o início, a continuidade e a consumação de todo o bem, de tal forma que, sem a sua influência, um homem, mesmo já estando regenerado, não pode conceber, nem fazer bem algum, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem essa graça emocionante e preventiva, que coopera com o homem. Como fica claro a partir desta afirmação, de maneira nenhuma cometo alguma injustiça à graça, atribuindo, como é relatado de mim, uma quantidade excessiva de coisas ao livre-arbítrio do homem. Toda a controvérsia se reduz à solução desta questão: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?” Ou seja, a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não. Com relação a este tópico, creio eu, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida[11].
Armínio reitera o conceito de graça preveniente presente na história da tradição cristã ao defender o favor divino antecedente que coopera com o homem antes mesmo da sua conversão, excluindo qualquer mérito humano. Evidentemente, ele não propõe uma nova doutrina heterodoxa, mas se vale de um conceito teológico tratado anteriormente na história da cristandade, inclusive pelo próprio Agostinho, e por teólogos do período medieval.
O ponto discordante no ensino da graça preveniente entre Armínio e Agostinho está na forma como se responde à seguinte indagação: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?”. Por isso, Armínio é enfático ao dizer que “a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não”[12].
Assim, enquanto a teologia agostiniana e calvinista responde de forma positiva à pergunta formulada, para dizer que a graça preveniente é irresistível, Armínio sustenta à luz das Escrituras que a resposta a tal indagação é negativa, sendo a graça preveniente resistível, podendo o homem rejeitá-la.
Em sua perspectiva, conforme escrito em sua Declaração de Sentimentos, “a graça é branda e se mescla com a natureza do homem, para não destruir dentro dele a liberdade da sua vontade, mas para lhe dar uma direção correta, para corrigir a sua depravação, e parar permitir que o homem possua as próprias noções adequadas”[13].
O teólogo holandês é enfático em afirmar que a Queda afastou o homem de Deus, colocando-o em uma “condição de aprisionamento da vontade”. Agora, “a mente do homem é escura, destituída do conhecimento salvífico de Deus e, de acordo com o apóstolo Paulo, incapaz de alcançar as coisas que pertencem ao Espírito”[14] pelo seu próprio esforço. Disso resulta a perversidade das afeições do coração, passando a buscar o que é mal.
Em tal condição, o homem não pode agradar a Deus (Rm 8.7,8), pois o seu coração é, segundo as Escrituras, “enganoso e perverso”, “duro” e de “pedra” (Jr 13.10; Jr 17.9; Ez 36.26), cuja imaginação é “só má continuamente” desde a meninice (Gn 6.5; 8.21). Logo, estando o homem morto em pecado (Rm 3.10-19), segue-se que a “nossa vontade não é livre desde a primeira Queda; ou seja, ele não é livre para o bem, a menos que seja libertado pelo Filho, por meio de seu Espírito”.[15] Isso ocorre quando:
(...) uma nova luz e o conhecimento de Deus e de Cristo e da vontade divina são acesos em sua mente; e quando novas afeições, inclinações e deslocamentos que estão de acordo com a vontade de Deus são incitados em seu coração, e novos poderes são produzidos nele; acontece que, sendo liberto do império das trevas e tendo sido feito agora ‘luz do Senhor’ (Ef 5.8), ele compreende o verdadeiro bem que pode salvá-lo[16].
Consequentemente, essa renovação altera completamente a condição humana e a sua capacidade de escolha. Uma vez que a dureza do coração de pedra é transformada em maciez da carne, e a Lei de Deus de acordo com a aliança da graça é inscrita nele (Jr 31.32, 3), o homem passa a abraçar aquilo que é bom, justo e santo.
Armínio, então, sublinha com vivas cores que “o início da obra de qualquer boa coisa assim como o seu progresso, continuidade e com e confirmação, e ainda além, a perseverança no bem não vêm de nós mesmos, mas de Deus, por meio maravilhoso Espírito Santo, uma vez que ‘aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo’ (Fp 1.6)”[17]. Ele atribui importância tanto à graça subsequente quanto à graça preveniente, ao dizer:
A graça subsequente ou a graça que vem a seguir assiste, de fato, o bom propósito do homem; mas esse bom propósito não teria existência, exceto por meio da graça precedente ou antecipada; E embora o desejo do homem, chamado bom, possa ser assistido pela graça logo que nasce, ainda sim, ele não nasce sem a graça; é inspirado por aquele sobre quem o apóstolo Paulo nos escreve, dizendo: ‘Graças a Deus, que pôs a mesma solicitude por vós no coração de Tito’. É Deus que incita qualquer um a ter ‘solicitude’ por outro; Ele colocará no ‘coração’ de outra pessoa o mesmo sentimento de ‘solicitude’ por Ele”[18].
Logo se vê que a teologia arminiana está encharcada da graça de Deus, seja antes ou depois da decisão do homem, como causa interior da salvação. É, portanto, a graça preveniente que restabelece o arbítrio no homem, a fim de poder entregar-se a Cristo. Nesse sentido, para Armínio a liberdade cristã é o estado de plenitude de graça e verdade em que os crentes ao colocados por Deus, por intermédio de Cristo. A causa eficiente é Deus, que exibe essa liberdade, mas depende do recebimento por parte do homem, mediante a fé em Cristo (Jo 1.12; Rm 5.2; Gl 3.26)[19].
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*Valmir Nascimento é ministro do evangelho, jurista, teólogo e mestrando em teologia. Possui pós-graduação em Direito e antropologia da religião. Professor universitário de Direito religioso, Ética e Teologia. Editor da Revista acadêmica Enfoque Teológico (FEICS). Membro e Diretor de Assuntos Acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). Analista Jurídico da Justiça Eleitoral. Escritor e palestrante. Comentarista de Lições Bíblicas de Jovens da CPAD (Jesus e o seu Tempo). Evangelista da Assembleia de Deus em Cuiabá/MT.
NOTAS  E REFERÊNCIAS

[1] SHELTON, Brian W. Preveniente Grace: God’s Provision for fallen humanity. Indiana: Francis Asbury Press, 2014, posição 3443.
[2] SHELTON, 2014, posição 3443.
[3] SHELTON, 2014, posição 3443.
[4] SHELTON, 2014, posição 3475.
[5] PATTON, Jeff. Preveniente Grace. Disponível em: <http://www.eternalsecurity.us/prevenient_grace.htm&gt;. Acesso em 10 de maio de 2016.
[6] SHELTON, 2014, posição 106.
[7] POPE, Willian Burton. Apud: PATTON, Jeff.
[8] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 212.
[9] SHELTON, 2014, posição 313.
[10] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 231.
[11] ARMÍNIO, 2015, p. 232.
[12] ARMÍNIO, 2015, p. 232.
[13] ARMÍNIO, 2015, p. 209.
[14] ARMÍNIO, 2015, p. 473.
[15] ARMÍNIO, 2015, p. 475.
[16] ARMÍNIO, 2015, p. 475.
[17] ARMÍNIO, 2015, p. 476.
[18] ARMÍNIO, 2015, p. 477.
[19] ARMÍNIO, 2015, p. 536.
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Fonte:http://www.cpadnews.com.br/blog/valmirnascimento/enfoque-cristao/130/compreendendo-a-graca-preveniente.html