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domingo, 11 de janeiro de 2026

A Relação Teológica, Doutrinária, Ortodoxa e Histórica entre o Pentecostalismo Clássico e a Patrística

11.01.2026


O período patrístico se refere à era dos pais da Igreja, sucessores dos apóstolos, seus escritos e pensamentos, que formam a literatura cristã antiga. A expressão “teologia patrística” foi criada pelos teólogos do século XVIII, quando expuseram a doutrina dos pais da Igreja, distinguindo-a da “teologia bíblica, escolástica, simbólica e especulativa”.

A patrística tem caráter doutrinal, se relacionando também com a teologia moral, teologia espiritual, a Sagrada Escritura e a liturgia. A patrística teve sua origem na necessidade urgente de consolidar a tradição ortodoxa, tendo assim um peso de autoridade (não absoluto) para validar as doutrinas ou opor-se a elas.

O termo “pai” ou “padre”, de onde se origina “patrística”, é um título já encontrado entre os filósofos gregos e entre os judeus para indicar o mestre que se ocupa da instrução e formação e que faz com que o discípulo nasça para uma nova vida.

A relação teológica e doutrinária entre o Pentecostalismo Clássico e a teologia ortodoxa dos Pais da Igreja, pode ser constatada através das inúmeras citações feitas a esse período por teólogos pentecostais. Observemos alguns exemplos:

Myer Pearlman

“Como foi preservada a doutrina da Trindade de não deslocar para os extremos, nem para o lado da Unidade (sabelianismo) nem para o lado da Tri-unidade (triteísmo)? Foi pela formulação de dogmas, isto é, interpretações que definissem a doutrina e a protegessem contra o erro. O seguinte exemplo de dogma acha-se no Credo de Atanásio formulado no quinto século […].” (Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, Vida, 1987, p. 52).
“Embora as seguintes palavras do credo de Niceia (século quarto) tenham sido, como ainda são, recitadas por muitos de maneira formalista, não obstante, elas expressam fielmente sincera convicção da igreja primitiva […].” (Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, Vida, 1987, p. 100)

Raimundo de Oliveira

“O primeiro concílio da Igreja que fez uma lista de vinte e sete livros do Novo Testamento, foi o Concílio de Cartago, na África, no ano 397, da nossa Era. Livros soltos do Novo Testamento já eram considerados como Escritura canônica bem antes desse tempo, enquanto que a maioria foi aceita nos anos posteriores aos apóstolos.” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 36)

“O arianismo encontrou em Atanásio o seu mais corajoso oponente. Ao seu tempo escreveu Atanásio: ‘A verdade revela que o Logos não é uma dessas coisas criadas; ao invés disso, é seu Criador’ […]. Cirilo conseguiu a condenação de Nestório no Sínodo romano de agosto de 430, ratificada no Sínodo de Alexandria. […] Se alguém não confessar que o Verbo de Deus sogreu na carne e foi crucificado na carne… seja anátema. O Concílio de Éfeso, realizado em 431, aprovou esta carta contendo os doze anátemas de Cirilo. […] Numa tentativa de pôr fim às demandas cristológicas dos primeiros quinhentos anos da história da Igreja, o Concílio de Calcedônia, reunido em 451, firmou e aprovou o seguinte documento […].” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 95-98)

“Grandes vultos da Igreja Primitiva, comumente chamados de ‘Pais da Igreja’, tinham como ponto pacífico a crença quanto à imagem de Deus no homem, a qual consistia principalmente nas características racionais e morais do homem, e em sua capacidade de santificar-se. […] A distinção entre a imagem e a semelhança de Deus no homem, feita por alguns Pais da Igreja, foi aceita e seguida por muitas escolas de interpretações que iriam influir no pensamento cristão nos anos seguintes.” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 163,164)

“Na igreja latina, porém, apareceu uma tendência diferente através da pessoa de Tertuliano, que segundo alguns teólogos, foi o homem que depois de Paulo teve maior senso a respeito do pecado. Tertuliano considerou o pecado original uma infecção hereditária. Ambrósio, outro famoso Pai da Igreja latina, foi além de Tertuliano na questão do pecado original e o descreveu como um estado, e fez uma distinção entre a corrupção inata e a resultante culpa do homem. Porém, foi através do talento e do espírito de Agostinho que a doutrina do pecado original alcançou um total desenvolvimento.” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 199,200)

“Dos oitenta e quatro chamados Pais da Igreja primitiva, só dezesseis criam que o Senhor se referiu a Pedro, quando disse “essa pedra”. Os demais, uns diziam que a expressão se referia a Cristo mesmo, outros à confissão que Pedro acabara de fazer, ou, ainda, a todos os apóstolos.” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 257)

“De acordo com a História da Igreja, foram as congregações locais que escolheram espontaneamente, proeminentes bispos, como Atanásio (328- d.c), Ambrósio (374 d.C.) e Crisóstomo (398 d.C.).” (As Grandes Doutrinas da Bíblia, CPAD, 1987, p. 265).

Abraão de Almeida

“A mais famosa de todas as escolas patrísticas foi a de Alexandria, onde tiveram atuação destacada Clemente, Panteno e Orígenes. No período de apogeu, os filósofos patrísticos procuram esclarecer o sentido autêntico das verdades reveladas, aproveitando, para isso, a derrota do paganismo. Agostinho, representante do período de apogeu, foi o maior filósofo da época patrística e uma das mais profundas e luminosas inteligências de todos os tempos.” (Teologia Contemporânea: A Influência das Correntes Filosóficas e Teológicas na Igreja, 12ª impressão, CPAD, 2016, p. 19).

Gary B. McGee

“Quando o Concílio Geral (título abreviado do Concílio Geral das Assembleias de Deus) veio a existir, em Hot Springs, Estado de Arkansas, em abril de 1914, já havia entre os participantes um consenso doutrinário, edificado nas verdades históricas da fé […].” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal Clássica, Stanley Horton [E.], 11. ed. CPAD, 2008, p. 21)

John R. Higgins

“Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Gregório Nazianso, Justino o Mártir, Irineu, Tertuliano, Orígenes, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho […], e um número incontável de outros gigantes da história da Igreja, reconhecem que a Bíblia foi, de fato, inspirada por Deus, e que é inteiramente verdade”. (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal Clássica, Stanley Horton [E.], 11. ed. CPAD, 2008, p. 108)

Kerry D. McRoberts

“Entramos no labirinto eclesiástico do desenvolvimento histórico da teologia trinitariana, seguindo nos passos de Irineu. Ele era bispo de Lião, na Gália, e discípulo de Policarpo que, por sua vez, era discípulo do apóstolo João. Em Irineu, portanto, temos um vínculo direto com a doutrina apostólica. […] Tertuliano, o ‘bispo pentecostal de Cartago’ (160-230), fez contribuições de valor inestimável para o desenvolvimento da ortodoxia trinitariana. […] A Igreja avançou ainda mais através do labirinto teológico da formulação doutrinária com o trabalho do célebre Orígenes (c. de 185-254). […] Trezentos bispos da Igreja Ocidental (alexandrina) e da Igreja Oriental (antioquiana) reuniram-se em Niceia, no grande concílio ecumênico, que procuraria definir com precisão teológica a doutrina da Trindade. […] Atanásio geralmente recebe o crédito de ter sido o grande defensor da fé no Concílio de Niceia. A parte maior da obra de Atanásio, porém, foi consumada depois desse grande concílio ecumênico.” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal Clássica, Stanley Horton [E.], 11. ed. CPAD, 2008, p. 165-175)

Carolyn Denise Baker e Frank D. Macchia

“Nos primeiros séculos depois de Cristo, os pais da igreja pouco disseram a respeito dos anjos. A maior parte de sua atenção era dedicada a outros assuntos, mormente à natureza de Cristo. Mesmo assim, todos eles acreditavam na existência dos anjos.” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal Clássica, Stanley Horton [E.], 11. ed. CPAD, 2008, p. 192)

Claudionor de Andrade

“Os ortodoxos afirmam que a Bíblia é a Palavra de Deus. […] Tertuliano escreveu Contra Marcião, numa apaixonada apologia do cânon atual da Bíblia Sagrada. Orígenes de Alexandria, nascido no Egito por volta de 185, também saiu com presteza, a fim de defender o cânon das Sagradas Escrituras. […] Nascido em 296, Atanásio tornou-se conhecido como o pai da ortodoxia em virtude de seu apaixonado zelo pela pureza doutrinária da fé cristã. À semelhança de seus predecessores, fez ele uma brilhante apologia da inspiração divina das Escrituras Sagradas como a Palavra de Deus.” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, Antonio Gilberto [E.], 2. ed. CPAD, 2008, p. 24,25)

“Jerônimo (331-414) jamais deixará de ser honrado como um dos mais notáveis eruditos da Igreja Cristã. Designado por Dâmaso (305-384), bispo de Roma, a revisar a Vetus Latina, entregou aos cristãos do Império Romano uma tradução primorosa da Bíblia Sagrada em latim (Vulgata).” (A Bíblia: A sempre atual Palavra de Deus, Edições Bernhard Johnson, 2021, p. 81)

“Os mais conceituados teólogos aceitam, defendem e proclamam a inerrância da Bíblia Sagrada como a inspirada e infalível Palavra de Deus. Têm-na eles como uma das colunas do Cristianismo; sem ela, nossa fé não teria qualquer razão de ser. Agostinho (354-430) também é firme no que concerne à inerrância bíblica: ‘Creio firmemente que nenhum daqueles autores errou em qualquer aspecto do que escreveu.’” (A Bíblia: A sempre atual Palavra de Deus, Edições Bernhard Johnson, 2021, p. 115)

Esequias Soares

“Muitos afirmam que Mateus escreveu o seu evangelho originalmente em hebraico e que depois ele foi traduzido para o grego. Isso com base na declaração dos pais da igreja, principalmente Papias (70-155), conforme registrada por Eusébio de Cesareia (264-340), historiador da igreja (história Eclesiástica, Livro III.39). […] Marcos não foi testemunha ocular dos fatos que escreveu. Segundo Irineu de Lião (125-202), Marcos ouviu de Pedro o que registrou em seu evangelho (Contra as Heresias 3.1), o que parece ter a confirmação em 1 Pedro 5.13. […] Lucas, o médico amado (Cl 4.14), foi companheiro de Paulo e dele certamente ouviu muitas coisas sobre Jesus (2 Tm 4.11). Irineu afirma que Lucas registrou o que ouviu nas pregações do apóstolo Paulo (Contra as Heresias, 3.1). […] Irineu afirma que João escreveu o seu evangelho em Éfeso (Contra as heresias, 3.1).” (Cristologia: A Doutrina de Jesus Cristo, Hagnos, 2008, p. 15-17)

“Justino, o Mártir (100-165), afirmava que as sementes da sabedoria divina foram semeadas por todo o mundo, portanto os cristãos podiam encontrar lampejos da verdade divina por toda parte, ou seja, na filosofia secular da Grécia. […] resumindo: nem tudo que foi ensinado pelos filósofos estava fora das Escrituras.” (Cristologia: A Doutrina de Jesus Cristo, Hagnos, 2008, p. 20,21)

“Os pais da igreja rebateram as heresias gnósticas, entre eles, Irineu de Lião, o principal expositor cristão que combateu o gnosticismo em sua obra Adversus Haerese (Contra as Heresias). […] Tertuliano (145-220), de Cartago, reconhecido como o Pai do Cristianismo Latino, refutou outras heresias e, entre elas, o gnosticismo em Contra Marcião e Contra Valentino. Hipólito de Roma (170-236), discípulo de Irineu, combateu o gnosticismo bem como outras heresias em Contra Todas as Heresias.” (Cristologia: A Doutrina de Jesus Cristo, Hagnos, 2008, p. 63)

“Atanásio (296-373) foi o inimigo implacável da doutrina arianista, dizia que o Filho é eterno e da mesma substância do Pai, ou seja, (homoousios), ‘da mesma substância; consubstancial’. O termo é central para o argumento de Atanásio contra Ário e a solução do problema trinitariano oferecido no Concílio de Niceia (325 d.C).” (Cristologia: A Doutrina de Jesus Cristo, Hagnos, 2008, p. 67)

“Os escritores cristãos, até o século III, referiram-se ao termo ‘teologia’ de forma negativa, como mitologia pagã. Orígenes foi o primeiro a emprega-lo no contexto cristão como ‘a sublimidade e a majestade da teologia’ (Contra Celso, 6.18). […] Qual é a fonte da teologia cristã? A própria palavra de Deus. […] É de Agostinho de Hipona a expressão: ‘creio para compreender’ […].” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, Antonio Gilberto [E.], 2. ed. CPAD, 2008, p. 51,52).

“A religiosidade humana é um fato universal e incontestável. Agostinho de Hipona declarou: ‘Ó Deus! Tu nos fizeste para ti mesmo, e a nossa alma não achará repouso, até que volt a ti’ (Confissões I.I)”. (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, Antonio Gilberto [E.], 2. ed. CPAD, 2008, p. 51,52, p. 55)

“[…] Tertuliano chamou-os de monarquianistas – gr. monarchia, ‘governo exercido por um único soberano’ […]. Práxeas foi discípulo de Noet, e o seu principal opositor foi Tertuliano. […] Hipólito, em Contra Todas as Heresias, refutou essas ideias, que hoje são defendidas pelos unicistas. […] Atanásio (296-373), o inimigo implacável da doutrina de Ário, dizia que o Filho é eterno e da mesma substância do Pai, ou seja, (homoousios), ‘da mesma substância; consubstancial’. O termo é central para o argumento de Atanásio contra Ário e a solução do problema trinitariano oferecido no Concílio de Niceia (325 d.C).” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, Antonio Gilberto [E.], 2. ed. CPAD, 2008, p. 93-95)

“O credo de Atanásio ou Atanasiano. […] Mais longo que o Niceno, trata-se de um credo que enfatiza, de modo mais pormenorizado, a Trindade. […] Na verdade, o Credo Atanasiano traz esse nome porque Atanásio defendeu tenazmente a ortodoxia cristã; no entanto, o autor do tal credo é desconhecido. […] Cada uma das três Pessoas desempenha um papel na igreja. Essa verdade ensinada primeiramente aos crentes de Éfeso, consta também do Credo de Atanásio […].” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, Antonio Gilberto [E.], 2. ed. CPAD, 2008, p. 96,97,101)

“Muitos documentos foram produzidos através dos séculos com o propósito de simplificar e facilitar a compreensão do pensamento cristão para o crescimento espiritual da Igreja, para protegê-la das heresias e para atender a necessidade regional de uma denominação. Os credos e confissões de fé ocupam um espaço importante na vida das igrejas, daí a importância de conhecer sua história e seu desenvolvimento.” (Credos e Confissões de Fé, Editora Bereia, 2013, p. 11)

William W. Menzies e Stanley Horton

“Em 367 d. C., o mais ortodoxo dos teólogos da época, o grande campeão da verdade bíblica, Atanásio, fez uma seleção de todos os livros que até então circulavam no mundo mediterrâneo, e que se diziam documentos apostólicos. Seu exame concluiu que apenas 27 livros (os mesmos que temos hoje no Novo Testamento) podiam ser considerados de fato como a infalível e inspirada Palavra de Deus.” (Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé, CPAD, 2011, p. 25)

Além da aprovação do Conselho de Doutrina da CGADB em todas as obras da CPAD aqui citadas, a ligação teológica, doutrinária, ortodoxa e histórica inequívoca entre o Pentecostalismo Clássico e a Patrística, e isso em relação aos pontos cardeais ou centrais da fé cristã, foi consolidada no Brasil através da Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2. ed., CPAD, 2017, p. 217-220), que publicou em seu apêndice os Credos Ecumênicos (o Credo dos Apóstolos, o Credo Niceno, o Credo Niceno-Constantinopolitano, o Credo de Calcedônia e o Credo de Atanásio ou Atanasiano):

“Os credos considerados universais são conhecidos como “credos ecumênicos”, visto que a sua aceitação é ampla e não se restringe a uma ou outra região. […] Seu conteúdo consta aqui neste apêndice, demonstrando que temos muitos pontos em comum com os primeiros cristãos. Esses credos são geralmente aceitos por católicos romanos, ortodoxos gregos e protestantes, pois seu conteúdo é comum às principais religiões que ostentam a bandeira de Cristo. […] A Comissão Especial pesquisou os credos ecumênicos e as principais confissões de fé históricas durante mais de um ano inteiro examinando seu conteúdo, forma e apresentação.” (Declaração de Fé das Assembleias de Deus , 2. ed., CPAD, 2017, p. 16-18)

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Fonte: https://altairgermano.com.br/a-relacao-teologica-doutrinaria-ortodoxa-e-historica-entre-o-pentecostalismo-classico-e-a-patristica/

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Por que deixei de ser calvinista (Parte 1): O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história

09.01.2026

Do blog ORTHODOXY AND HETERODOXY, 09.01.2014

Por Robin Phillips

Introdução

Minha esposa e eu éramos calvinistas (ou "reformados", como gostávamos de dizer) e queríamos que nossos filhos crescessem da mesma forma. Frequentávamos uma igreja calvinista e ensinávamos teologia reformada aos nossos filhos. No entanto, a partir de 2012, começamos a nos sentir cada vez mais desconfortáveis ​​com os principais princípios doutrinários dessa perspectiva.

Ainda respeitamos o calvinismo e esperamos preservar muitos de seus pontos fortes em nossa vida familiar. No entanto, chegamos à conclusão de que a teologia reformada se baseia em fundamentos não bíblicos, que acrescenta algo ao evangelho e que, inadvertidamente, incorpora diversas crenças heterodoxas. Na série de publicações a seguir, identificarei cinco desses fundamentos falhos do calvinismo.

Antes de iniciar a discussão sobre os cinco pontos em que o calvinismo falha, é importante esclarecer que estou falando aqui sobre o "calvinismo" em geral, e não especificamente sobre os ensinamentos de João Calvino. É importante manter essa distinção, visto que há debate sobre se Calvino era de fato calvinista. No entanto, acredito que existam bons motivos para afirmar alguma continuidade entre os ensinamentos de Calvino e os tipos de ideias que criticarei, mas essa é, em última análise, uma questão histórica que está além do escopo desta discussão.

Os 5 pontos que irei explorar são os seguintes:

  • O calvinismo apresenta uma Bíblia descontextualizada da história.
  • O calvinismo destrói a justiça de Deus.
  • O calvinismo distancia Deus da nossa experiência com Ele.
  • O calvinismo ensina a heresia do monergismo.
  • O calvinismo apresenta uma cristologia deformada.

Para este primeiro ponto de discussão, sugiro que a abordagem calvinista das escrituras está radicalmente desconectada do contexto histórico em que a Bíblia foi escrita.

Uma Bíblia Desistoricizada

Na segunda metade do século XX, houve grandes avanços em nossa compreensão do judaísmo do primeiro século, em grande parte como resultado da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e de toda a pesquisa que ela gerou. Essas descobertas nos proporcionaram uma apreciação muito melhor dos tipos de debates teológicos que fervilhavam na época do apóstolo Paulo. Isso significa que estamos em uma posição melhor para reconstruir cuidadosamente os tipos de argumentos que os oponentes judeus de Paulo provavelmente usavam contra o evangelho de Cristo.

Ao analisarmos esses estudos, torna-se cada vez mais evidente que os debates tradicionais entre calvinistas e não calvinistas sobre temas como predestinação e depravação total simplesmente não existiam na época de Paulo.

Quando deixamos de ler Paulo à luz dos debates posteriores entre Agostinho e os pelagianos, ou entre calvinistas e arminianos, e passamos a lê-lo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do Segundo Templo, torna-se evidente que, na maioria das passagens consideradas textos bíblicos padrão para o calvinismo, Paulo estava, na verdade, abordando as relações entre judeus e gentios e outras questões correlatas. Da mesma forma, muitas das passagens que imediatamente assumimos tratar de questões de salvação individual, na realidade, possuíam uma nuance mais relacionada à aliança, incluindo grande parte do arsenal de passagens prediletas do calvinismo. Tudo isso emerge à medida que reconstruímos cuidadosamente o contexto histórico de Paulo à luz do conhecimento atual dos historiadores sobre o judaísmo do primeiro século.

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Para quem quiser aprofundar este assunto, recomendo o seguinte:

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Fonte: https://blogs.ancientfaith.com/orthodoxyandheterodoxy/2014/01/09/why-i-stopped-being-a-calvinist-part-1-calvinism-presents-a-dehistoricized-bible/

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O pecado da simonia: Uma versão protestante

28.11.2017
Do portal ULTIMATO ON LINE, 05.2013
Por Alderi Souza de Matos*
Simonia – a palavra pode ser nova para muitos leitores, mas a prática é bastante antiga no âmbito do cristianismo. Na Idade Média, surgiu uma série de distorções na vida do clero e na administração eclesiástica. Três erros se destacaram por serem considerados especialmente danosos. O primeiro foi o “nicolaísmo”, termo derivado incorretamente de Apocalipse 2.15, o fato de que muitos clérigos viviam em concubinato, violando assim os seus votos solenes de castidade e celibato. A segunda prática condenada foram as chamadas “investiduras leigas”, isto é, a interferência de governantes civis (reis e imperadores) na nomeação e posse de altos líderes eclesiásticos, como abades e bispos. O terceiro mal na vida da igreja, esse certamente deletério sob todos os pontos de vista, foi a “simonia”.
 
Esse comportamento derivou o seu nome de Simão, o mágico, um personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais ele impusesse as mãos (At 8.18-24). Assim, a simonia veio a se referir à concessão ou obtenção de qualquer coisa espiritual ou sagrada mediante remuneração, fosse ela monetária ou de outra espécie. Em outras palavras, era a compra e venda de coisas religiosas. Cometia esse pecado quem oferecia e quem recebia pagamento em troca de um bem espiritual ou eclesiástico. Na Idade Média, referia-se principalmente ao comércio de cargos da igreja. Um papa que se notabilizou por sua luta incessante contra esses males foi Hildebrando, ou Gregório VII (1073–1085), que adotou como lema de seu pontificado as contundentes palavras de Jeremias 48.10: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente!”.
 
Curiosamente, em certo sentido a Reforma Protestante surgiu como consequência de dois casos de simonia. Um deles foi a compra do arcebispado de Mainz, ou Mogúncia, na Alemanha, pela poderosa família Hohenzollern, mediante uma negociação questionável com o papa Leão X envolvendo altas somas de dinheiro. O segundo caso ocorreu quando o novo arcebispo (e futuro cardeal) Alberto de Brandenburgo promoveu uma venda especial de indulgências, cujos rendimentos foram utilizados em parte para saldar a dívida da compra do arcebispado, sendo a outra parte entregue ao papa para financiar a construção da catedral de São Pedro, em Roma. A reação de Martinho Lutero contra esse comércio do perdão, mediante suas Noventa e Cinco Teses, foi o estopim da Reforma.
 
Durante séculos, o ministério protestante foi caracterizado por elevados padrões éticos, especialmente na sensível área das finanças. Seguindo o exemplo de Cristo e seus apóstolos (At 20.33s; 2Co 11.7), a maior parte dos pastores e líderes procuravam realizar o seu trabalho como uma expressão de serviço desinteressado a Deus e às pessoas, isento de ambições materiais. Mesmo indivíduos de grande projeção, como avivalistas e evangelistas de massa (Wesley, Whitefield, Spurgeon, Billy Graham e outros), jamais usaram de seu grande carisma e influência para auferir vantagens pecuniárias e aumentar o seu patrimônio. Tal comportamento sóbrio e consciencioso ocorreu em todos os ramos do protestantismo, tanto os tradicionais ou históricos como, mais tarde, os pentecostais clássicos.
 
Esse honroso legado sofreu um abalo lamentável e constrangedor no Brasil, a partir da década de 1970, com o surgimento do chamado neopentecostalismo. Firmados numa teologia duvidosa, resultante de uma interpretação tendenciosa e altamente seletiva das Escrituras, os principais líderes desse movimento vêm demonstrando uma atitude em relação ao dinheiro que em nada difere do velho pecado da simonia. Servindo-se do poderoso veículo da televisão e manipulando com habilidade as carências e ambições de uma considerável parcela da população, esses pregadores têm transformado o evangelho e suas bênçãos em mercadoria e fonte de lucro (2Co 2.17; 1Tm 6.5,10). 
 
A recepção de benefícios como a cura, a prosperidade e a felicidade é condicionada à entrega de contribuições, dando-se a entender que as bênçãos serão proporcionais à generosidade do ofertante. Fica inteiramente esquecido o ensino claro de Jesus: “[...] de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8). Em consequência disso, surgiu uma geração de pastores-empresários que estão se colocando entre os homens mais ricos do país. Dominados pela ganância condenada com tanta veemência nas Escrituras (1Ts 2.5; Tt 1.7; 1Pe 5.2), estão acumulando grandes fortunas na forma de mansões, fazendas, carros de luxo e, agora, o símbolo máximo dos novos ricos – jatinhos particulares. Eles influenciam de tal forma os seus seguidores que estes, além de não questionarem tal procedimento, acham que seus líderes merecem os privilégios que usufruem.
 
Não se discute que os obreiros cristãos sejam remunerados condignamente pelo seu trabalho (2Co 8.14). O que se lamenta é a mercantilização da fé, que tantos prejuízos tem trazido para a causa de Cristo ao longo dos séculos, obscurecendo a graça de Deus, o seu favor imerecido. Os modernos simoníacos não só estão manchando para sempre a sua própria reputação, mas também contribuindo para prejudicar a imagem de toda a classe ministerial e das comunidades evangélicas. Suas ações têm produzido e continuarão a produzir reações negativas da imprensa, da opinião pública e dos governantes. Eles fariam bem em considerar as palavras ditas pelos apóstolos a Simão, o mágico – e se arrependerem enquanto é tempo.
 
Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e "Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil". asdm@mackenzie.com.br.
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Fonte:http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/342/o-pecado-da-simonia-uma-versao-protestante