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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Trágico Diálogo do Jardim do Éden: Livre-Arbítrio, Tentação e a Voz da Escolha

19.01.2026
Publicado pelo pastor Irineu Messias*

Introdução

A narrativa de Gênesis 3.1-6 é um dos pilares da teologia cristã, oferecendo uma janela para a origem do pecado e a complexidade da condição humana. Longe de ser uma mera história antiga, ela revela princípios eternos sobre a tentação, a liberdade de escolha e as consequências da desobediência. Este artigo propõe uma análise desse "trágico diálogo", que valoriza a responsabilidade humana e a capacidade de resposta à graça divina. Ao examinar a interação entre a serpente e Eva, buscaremos compreender como a tentação se desenrola, como a Palavra de Deus pode ser distorcida e, crucialmente, como a liberdade de escolha, um dom divino, se manifesta no momento da decisão. A partir dessa exegese, extrairemos lições doutrinárias e aplicações pastorais que ressoam com os desafios contemporâneos da fé, convidando à reflexão sobre a "voz estranha" em nosso próprio tempo e a urgência de ouvir a voz de Deus.

Contexto bíblico-literário de Gênesis 3.1-6

O livro de Gênesis estabelece o cenário da criação perfeita de Deus, onde a humanidade, criada à Sua imagem e semelhança, desfrutava de comunhão plena com o Criador. Adão e Eva foram colocados no Jardim do Éden, um lugar de abundância e harmonia, com uma única restrição: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.16-17). Esta proibição não era arbitrária, mas um teste da obediência e da lealdade, um exercício da liberdade que lhes havia sido concedida. O capítulo 3 inicia com a introdução de um novo personagem: a serpente, descrita como "mais astuta que todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito" (Gn 3.1). A narrativa, portanto, não apresenta um cenário de predestinação para a queda, mas um ambiente onde a escolha moral era uma realidade presente e iminente. A liberdade de Adão e Eva era genuína, e a possibilidade de obedecer ou desobedecer estava diante deles.

Exegese e análise do “diálogo” (v.1-5)

O diálogo entre a serpente e Eva é uma obra-prima de engano e manipulação. A "antiga serpente", identificada posteriormente como Satanás (Ap 12.9), não ataca diretamente, mas questiona sutilmente a Palavra de Deus: "É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?" (Gn 3.1). Esta é a primeira tática da "voz estranha": semear a dúvida sobre a bondade e a veracidade da revelação divina. A serpente não nega a Palavra, mas a distorce, misturando verdade e mentira, uma estratégia que hoje reconhecemos como "fake news" espiritual.

Eva, em sua resposta, demonstra um conhecimento parcial da ordem divina, mas com uma adição perigosa: "Do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem nele tocareis, para que não morrais" (Gn 3.3). A proibição de "tocar" não havia sido dada por Deus (Gn 2.16-17). Essa adição, embora aparentemente bem-intencionada para reforçar a proibição, revela uma vulnerabilidade: a Palavra de Deus não deve ser alterada, nem para mais, nem para menos.(Dt 4.2) Ao acrescentar à Palavra, Eva abriu uma brecha para a serpente explorar.

A serpente então avança com uma negação direta e uma promessa enganosa: "Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal" (Gn 3.4-5). Aqui, a "voz estranha" acusa Deus de egoísmo e de reter algo bom de Suas criaturas. A promessa de "ser como Deus" apela ao orgulho e ao desejo de autonomia, distorcendo a verdadeira imagem e semelhança com Deus que a humanidade já possuía. A serpente não forçou Eva; ela apresentou uma alternativa, uma "verdade" sedutora que apelava à sua razão e aos seus desejos. A escolha, no entanto, permaneceu nas mãos de Eva, evidenciando a liberdade e a responsabilidade que Deus lhe havia concedido.

A dinâmica do desejo (v.6) e a queda

O versículo 6 descreve o clímax da tentação e a consumação da queda: "E, vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu; e deu também a seu marido, e ele comeu." Este versículo revela a progressão da tentação, que se move do questionamento externo para o desejo interno. Eva não foi coagida; ela "viu", "desejou" e "tomou".

A serpente plantou a semente da dúvida, Eva a regou com sua alteração da Palavra, e o desejo a fez florescer. A árvore, antes proibida, tornou-se "boa para se comer" (satisfação física), "agradável aos olhos" (satisfação estética) e "desejável para dar entendimento" (satisfação intelectual/espiritual, o desejo de ser como Deus). Esta tríplice atração ecoa as tentações que a humanidade enfrentaria repetidamente (1Jo 2.16).

A decisão de Eva foi um ato de livre-arbítrio. Ela tinha a capacidade de resistir, de rejeitar a "voz estranha" e de permanecer fiel à Palavra de Deus. A graça preveniente de Deus, que a capacitava a discernir e a obedecer, estava disponível. No entanto, ela escolheu ceder ao desejo e à mentira. Adão, por sua vez, também fez sua própria escolha consciente ao comer do fruto. A queda não foi um acidente ou um destino inevitável, mas o resultado de escolhas livres e responsáveis, que tiveram consequências devastadoras para toda a humanidade.

Dimensões doutrinárias

A narrativa de Gênesis 3.1-6 é rica em implicações doutrinárias: 

  • Pecado: O pecado não é uma condição imposta por Deus, mas o resultado de uma escolha voluntária de desobediência. Ele surge da liberdade humana de rejeitar a vontade divina. A queda de Adão e Eva demonstra que o pecado é uma transgressão da lei de Deus, uma falha em confiar e obedecer (Rm 5.12).
  • Liberdade: A liberdade de escolha, ou livre-arbítrio, é um dom inerente à imagem de Deus no ser humano. Adão e Eva eram genuinamente livres para obedecer ou desobedecer. Essa liberdade é fundamental para a responsabilidade moral. Deus não os programou para pecar, mas lhes deu a capacidade de escolher, tornando-os moralmente responsáveis por suas ações.
  • Tentações: A tentação não é pecado em si, mas um convite ao pecado. A narrativa mostra que a tentação opera através da dúvida, da distorção da verdade e do apelo aos desejos humanos. No entanto, a Bíblia assegura que Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças e que sempre provê um meio de escape (1Co 10.13). A possibilidade de resistir é real e depende da nossa escolha de confiar em Deus e em Sua Palavra.
  • Revelação: A clareza da revelação divina é crucial. Deus havia comunicado Sua vontade de forma inequívoca. A serpente, no entanto, buscou obscurecer e distorcer essa revelação. Isso sublinha a importância de uma compreensão pura e inalterada da Palavra de Deus.
  • Autoridade das Escrituras: A integridade da Palavra de Deus é inegociável. A falha de Eva em manter a pureza da ordem divina, ao adicionar "nem nele tocareis", ilustra o perigo de manipular ou relativizar a autoridade das Escrituras. A Palavra de Deus é a verdade absoluta e o padrão para a vida e a fé.

Aplicações pastorais contemporâneas

A história do Éden, embora antiga, ressoa poderosamente em nosso contexto contemporâneo, oferecendo valiosas aplicações pastorais:

  • Má conversação e influência: A "voz estranha" da serpente é um lembrete constante do poder da influência negativa. Como Paulo adverte, "as más conversações corrompem os bons costumes" (1Co 15.33). Isso se manifesta em amizades tóxicas, ambientes de trabalho hostis à fé ou até mesmo dentro da própria comunidade de fé, onde a dúvida e o engano podem ser semeados. A escolha de quem ouvimos e com quem nos associamos é vital para nossa saúde espiritual. O exemplo de Pedro, que se tornou uma "pedra de tropeço" para Jesus ao sugerir um caminho diferente do plano divino (Mt 16.23), demonstra que a "voz estranha" pode vir de onde menos esperamos, até mesmo de pessoas bem-intencionadas. A história de Datã, Abirão e Corá (Nm 16), que lideraram uma rebelião contra a autoridade estabelecida por Deus, ilustra o perigo da influência coletiva para o mal e a responsabilidade individual de não seguir a multidão para o erro.
  • "Voz estranha" e "fake news": A estratégia da serpente de misturar verdade e mentira é um precursor das "fake news" de hoje. Em um mundo saturado de informações e desinformações, a capacidade de discernir a verdade da mentira é mais crucial do que nunca. A "voz estranha" pode vir de mídias sociais, ideologias seculares ou até mesmo de púlpitos que distorcem a Palavra de Deus. O crente é chamado a ser vigilante, testando os espíritos para ver se procedem de Deus (1Jo 4.4).
  • Discernimento espiritual: A falha de Eva em discernir a verdadeira intenção da serpente e a integridade da Palavra de Deus destaca a necessidade de um discernimento espiritual aguçado. Isso se desenvolve através do estudo diligente das Escrituras, da oração e da comunhão com o Espírito Santo. Somente assim podemos reconhecer a "voz estranha" e permanecer firmes na verdade.
  • A escolha da obediência: A liberdade de escolha é um tema central. Josué desafiou o povo de Israel: "Escolhei hoje a quem sirvais" (Js 24.15). Essa exortação ecoa a cada geração. A salvação e a vida cristã são um caminho de escolhas contínuas. Receber a Cristo é uma escolha (Jo 1.12), e viver no Espírito é uma escolha diária contra a carne (Rm 8.5-14). A advertência de Hebreus 3.7-8, "Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações", ressalta a urgência e a responsabilidade de responder prontamente à voz de Deus, antes que a oportunidade se perca.

Conclusão

O trágico diálogo no Jardim do Éden em Gênesis 3.1-6 permanece como um testemunho perene da liberdade humana e da seriedade da escolha moral. A "antiga serpente", com sua astúcia e sua estratégia de distorcer a Palavra de Deus, encontrou em Eva uma vulnerabilidade que levou à queda. Contudo, a narrativa não é de um destino selado, mas de uma decisão livre e responsável. Este relato bíblico nos lembra que a humanidade foi criada com a capacidade de escolher, e que a graça preveniente de Deus sempre nos capacita a resistir à tentação e a obedecer à Sua voz.

As lições do Éden são atemporais. Em um mundo repleto de "vozes estranhas", "fake news" e "más conversações", somos chamados a um discernimento espiritual constante, a um apego inabalável à pureza da Palavra de Deus e a uma vigilância sobre nossas próprias escolhas. Que possamos, como crentes, exercer nossa liberdade dada por Deus para ouvir e obedecer à Sua voz, escolhendo a vida e a bênção, e resistindo a toda forma de engano, para a glória Daquele que nos amou e nos deu, por meio de Cristo Jesus, poder de nos tornarmos Seus filhos.

Referências bíblicas

  • Gênesis 2.16-17
  • Gênesis 3.1-6
  • Números 16
  • Deuteronômio 30.19
  • Josué 24.15
  • Mateus 16.23
  • João 1.12; 8.44
  • Romanos 5.12
  • Romanos 8.5-14
  • 1 Coríntios 10.13
  • 1 Coríntios 15.33
  • Hebreus 3.7-8
  • 1 João 2.16
  • 1 João 4.4
  • Apocalipse 12.9; 20.2
Nota: Este arrtigo foi elaborado a partir do sermão do pastor Irineu Messias "O Trágico Diálogo do Jardim do Éden", mnistrado  no dia 18.01.2026, na Assembleia de Deus do Planalto Central - ADEPLAN - DF. Clique  aqui e ouça no Youtube
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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

DOUTRINA DA SALVAÇÃO: Compreendendo a Graça Preveniente

16.11.2017
Do portal CPADNEWS, 09.11.17
Por Valmir Nascimento

Valmir NascimentoNa soteriologia arminiana, a graça preveniente é uma doutrina essencial. Graça preveniente é o termo teológico que explica a forma como Deus capacita o homem previamente para que possa atender ao chamado da salvação. Assim como muitas outras doutrinas bíblicas, a exemplo da Trindade e da depravação total, o termo “graça preveniente” não se encontra expressamente[1] nas Escrituras, mas o ensino sim, visto tratar-se de uma categoria bíblica tácita, evidenciada por meio da interpretação sistemática do Texto Sagrado.
A graça preveniente está dentro do retrato maior das Escrituras, a partir da compreensão do trabalho divino para a salvação do homem[2]. Brian Shelton, com razão, afirma que a teologia sistemática examina cada doutrina à luz do maior testemunho das Escrituras para maior coerência ou correção. “Esta é a melhor maneira de testar a nossa interpretação de qualquer doutrina bíblica, incluindo o de nossa capacidade restaurada a crer em Cristo”[3].
Ao captar essa perspectiva H. Ray Dunning aponta, então, que a graça preveniente é “uma categoria teológica desenvolvida para capturar um motivo bíblico central”[4]. Ela é o resultado da análise cumulativa do texto bíblico, tendo como parâmetro as seguintes verdades: a Queda de Adão; a redenção proporcionada por Deus em Cristo; a incapacidade do homem de, e por si mesmo, voltar-se para Deus; a graça de Deus trazendo salvação a – todos –  os homens; o convite para que o homem se arrependa de seus pecados e creia (tenha fé) na obra de Cristo; a atuação de Deus para o convencimento e preparação do coração do pecador e; a possibilidade de resistência pelo homem.
Uma vez harmonizadas, essas verdades bíblicas deixam entrever a veracidade do conceito teológico da graça preveniente.
Etimologicamente, advém do latim gratia praevenians (prae = antes de + venire = venha), ou seja, “graça que vem antes”. Antes de quê? Antes de qualquer coisa no processo de salvação. Daí porque Jeff Paton recorda que muitos outros termos poderiam ser usados para descrever esta obra de Deus, como iniciativa divina, graça anterior e graça preparatória[5].
Em uma definição inicial, portanto, a graça preveniente é o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador e o capacita espiritualmente para que se arrependa e se converta a Cristo. Ela não salva por si só[6], mas apenas permite o arrependimento, criando uma condição favorável para que todos venham a crer (Jo 3.16).
O expositor bíblico Willian Burton Pope afirma que ela “é a única causa eficiente de todo o bem espiritual no homem; do começo, continuação e consumação da religião na alma humana”[7]. Roger Olson[8] expressa que a graça preveniente é a poderosa, porém resistível, atração de Deus para que o pecador se arrependa. Assim, uma pessoa é salva porque Deus iniciou uma relação e habilitou tal pessoa a responder livremente com arrependimento e fé. Desse modo, ninguém pode ser salvo sem o auxílio sobrenatural, do início ao fim, do Espírito Santo, bastando que a pessoa não lhe resista.
Em sua obra Prevenient Grace: God´s provision for fallen humanity, W. Brian Shelton diz que “a doutrina da graça preveniente fornece um link – uma solução – para a lógica desconexão entre a depravação espiritual humana e a necessidade de crer para a salvação”[9].
A graça preveniente, portanto, é o meio pelo qual Deus vai ao encontro do pecador para começar a obra da salvação, atraindo-o e capacitando-o espiritualmente para responder à obra divina. Tal doutrina bíblica ensina que em se tratando de salvação é Deus quem toma a iniciativa de chegar-se ao homem caído, e nunca o contrário, reconhecendo ao mesmo tempo tanto a total depravação humana quanto a possibilidade de o homem resistir a essa oferta graciosa.
Nesse sentido, Jacó Armínio tinha um profundo compromisso com a graça divina, e por isso atribuía a ela a causa principal das bênçãos espirituais. O exame das obras do teólogo holandês seria suficiente para afastar qualquer alegação de que ele teria defendido uma salvação baseada no mérito e na capacidade do livre arbítrio do homem. Armínio tinha total convicção bíblica e factual dos efeitos devastadores decorrentes da Queda no pecado e da completa incapacidade do homem de conseguir o favor divino, seja pensar, querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom, necessitando para tanto da benevolência prévia e contínua de Deus.
Em Declarações de Sentimentos ele escreve:
Mas em seu estado de descuido e pecado, o homem não é capaz de pensar, nem querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom; pois é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições e desejos, e em todos os seus poderes, por Deus, em Cristo, por intermédio do Espírito Santo, para que possa ser corretamente qualificado para entender, estimar, considerar, desejar e fazer aquilo que realmente seja bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, estando liberto do pecado, ele é capaz de pensar, de querer e fazer aquilo que é bom, mas ainda não sem a ajuda continuada da graça divina.[10]
Desta maneira, atribuo à graça o início, a continuidade e a consumação de todo o bem, de tal forma que, sem a sua influência, um homem, mesmo já estando regenerado, não pode conceber, nem fazer bem algum, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem essa graça emocionante e preventiva, que coopera com o homem. Como fica claro a partir desta afirmação, de maneira nenhuma cometo alguma injustiça à graça, atribuindo, como é relatado de mim, uma quantidade excessiva de coisas ao livre-arbítrio do homem. Toda a controvérsia se reduz à solução desta questão: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?” Ou seja, a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não. Com relação a este tópico, creio eu, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida[11].
Armínio reitera o conceito de graça preveniente presente na história da tradição cristã ao defender o favor divino antecedente que coopera com o homem antes mesmo da sua conversão, excluindo qualquer mérito humano. Evidentemente, ele não propõe uma nova doutrina heterodoxa, mas se vale de um conceito teológico tratado anteriormente na história da cristandade, inclusive pelo próprio Agostinho, e por teólogos do período medieval.
O ponto discordante no ensino da graça preveniente entre Armínio e Agostinho está na forma como se responde à seguinte indagação: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?”. Por isso, Armínio é enfático ao dizer que “a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não”[12].
Assim, enquanto a teologia agostiniana e calvinista responde de forma positiva à pergunta formulada, para dizer que a graça preveniente é irresistível, Armínio sustenta à luz das Escrituras que a resposta a tal indagação é negativa, sendo a graça preveniente resistível, podendo o homem rejeitá-la.
Em sua perspectiva, conforme escrito em sua Declaração de Sentimentos, “a graça é branda e se mescla com a natureza do homem, para não destruir dentro dele a liberdade da sua vontade, mas para lhe dar uma direção correta, para corrigir a sua depravação, e parar permitir que o homem possua as próprias noções adequadas”[13].
O teólogo holandês é enfático em afirmar que a Queda afastou o homem de Deus, colocando-o em uma “condição de aprisionamento da vontade”. Agora, “a mente do homem é escura, destituída do conhecimento salvífico de Deus e, de acordo com o apóstolo Paulo, incapaz de alcançar as coisas que pertencem ao Espírito”[14] pelo seu próprio esforço. Disso resulta a perversidade das afeições do coração, passando a buscar o que é mal.
Em tal condição, o homem não pode agradar a Deus (Rm 8.7,8), pois o seu coração é, segundo as Escrituras, “enganoso e perverso”, “duro” e de “pedra” (Jr 13.10; Jr 17.9; Ez 36.26), cuja imaginação é “só má continuamente” desde a meninice (Gn 6.5; 8.21). Logo, estando o homem morto em pecado (Rm 3.10-19), segue-se que a “nossa vontade não é livre desde a primeira Queda; ou seja, ele não é livre para o bem, a menos que seja libertado pelo Filho, por meio de seu Espírito”.[15] Isso ocorre quando:
(...) uma nova luz e o conhecimento de Deus e de Cristo e da vontade divina são acesos em sua mente; e quando novas afeições, inclinações e deslocamentos que estão de acordo com a vontade de Deus são incitados em seu coração, e novos poderes são produzidos nele; acontece que, sendo liberto do império das trevas e tendo sido feito agora ‘luz do Senhor’ (Ef 5.8), ele compreende o verdadeiro bem que pode salvá-lo[16].
Consequentemente, essa renovação altera completamente a condição humana e a sua capacidade de escolha. Uma vez que a dureza do coração de pedra é transformada em maciez da carne, e a Lei de Deus de acordo com a aliança da graça é inscrita nele (Jr 31.32, 3), o homem passa a abraçar aquilo que é bom, justo e santo.
Armínio, então, sublinha com vivas cores que “o início da obra de qualquer boa coisa assim como o seu progresso, continuidade e com e confirmação, e ainda além, a perseverança no bem não vêm de nós mesmos, mas de Deus, por meio maravilhoso Espírito Santo, uma vez que ‘aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo’ (Fp 1.6)”[17]. Ele atribui importância tanto à graça subsequente quanto à graça preveniente, ao dizer:
A graça subsequente ou a graça que vem a seguir assiste, de fato, o bom propósito do homem; mas esse bom propósito não teria existência, exceto por meio da graça precedente ou antecipada; E embora o desejo do homem, chamado bom, possa ser assistido pela graça logo que nasce, ainda sim, ele não nasce sem a graça; é inspirado por aquele sobre quem o apóstolo Paulo nos escreve, dizendo: ‘Graças a Deus, que pôs a mesma solicitude por vós no coração de Tito’. É Deus que incita qualquer um a ter ‘solicitude’ por outro; Ele colocará no ‘coração’ de outra pessoa o mesmo sentimento de ‘solicitude’ por Ele”[18].
Logo se vê que a teologia arminiana está encharcada da graça de Deus, seja antes ou depois da decisão do homem, como causa interior da salvação. É, portanto, a graça preveniente que restabelece o arbítrio no homem, a fim de poder entregar-se a Cristo. Nesse sentido, para Armínio a liberdade cristã é o estado de plenitude de graça e verdade em que os crentes ao colocados por Deus, por intermédio de Cristo. A causa eficiente é Deus, que exibe essa liberdade, mas depende do recebimento por parte do homem, mediante a fé em Cristo (Jo 1.12; Rm 5.2; Gl 3.26)[19].
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*Valmir Nascimento é ministro do evangelho, jurista, teólogo e mestrando em teologia. Possui pós-graduação em Direito e antropologia da religião. Professor universitário de Direito religioso, Ética e Teologia. Editor da Revista acadêmica Enfoque Teológico (FEICS). Membro e Diretor de Assuntos Acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). Analista Jurídico da Justiça Eleitoral. Escritor e palestrante. Comentarista de Lições Bíblicas de Jovens da CPAD (Jesus e o seu Tempo). Evangelista da Assembleia de Deus em Cuiabá/MT.
NOTAS  E REFERÊNCIAS

[1] SHELTON, Brian W. Preveniente Grace: God’s Provision for fallen humanity. Indiana: Francis Asbury Press, 2014, posição 3443.
[2] SHELTON, 2014, posição 3443.
[3] SHELTON, 2014, posição 3443.
[4] SHELTON, 2014, posição 3475.
[5] PATTON, Jeff. Preveniente Grace. Disponível em: <http://www.eternalsecurity.us/prevenient_grace.htm&gt;. Acesso em 10 de maio de 2016.
[6] SHELTON, 2014, posição 106.
[7] POPE, Willian Burton. Apud: PATTON, Jeff.
[8] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 212.
[9] SHELTON, 2014, posição 313.
[10] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 231.
[11] ARMÍNIO, 2015, p. 232.
[12] ARMÍNIO, 2015, p. 232.
[13] ARMÍNIO, 2015, p. 209.
[14] ARMÍNIO, 2015, p. 473.
[15] ARMÍNIO, 2015, p. 475.
[16] ARMÍNIO, 2015, p. 475.
[17] ARMÍNIO, 2015, p. 476.
[18] ARMÍNIO, 2015, p. 477.
[19] ARMÍNIO, 2015, p. 536.
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Fonte:http://www.cpadnews.com.br/blog/valmirnascimento/enfoque-cristao/130/compreendendo-a-graca-preveniente.html