15.01.2026
Publicado pelo pastor Irineu Messias
A escravidão, em sua configuração colonial e racial, não representa apenas um erro histórico ou um desvio ético; ela constitui uma heresia antropológica. Para a ortodoxia assembleiana, a legitimação de qualquer sistema que reduza o ser humano à condição de objeto nega os pilares da criação, da queda e da redenção.
1. A Dignidade Ontológica na Declaração de Fé
O ponto de partida para qualquer análise social no campo assembleiano reside em sua Declaração de Fé das Assembleias de Deus. O documento oficial estabelece que a natureza humana é dotada de uma dignidade que transcende estruturas políticas ou econômicas.
No Capítulo X, que trata da Criação do Homem, a Declaração afirma:
"Cremos que o homem foi criado por Deus [...] dotado de inteligência, consciência e livre-arbítrio. [...] A dignidade humana baseia-se no fato de que o homem foi feito à imagem de Deus, e isso o coloca acima de toda a criação material."
Sob essa ótica, a escravidão é uma tentativa violenta de apagar a Imago Dei. Ao transformar um portador da imagem divina em mercadoria (chattel), o sistema escravista comete um ato de rebelião contra o Criador.
2. A Distorsão Exegética e a Crítica à "Escravidão Racial"
Um dos maiores desafios teológicos é responder àqueles que, em meados do século XIX, utilizaram a Bíblia para defender o cativeiro no Sul dos EUA e no Brasil. O teólogo assembleiano Douglas Baptista, em sua análise sobre a moral cristã, explica que tais defensores operavam em profunda cegueira exegética.
Em sua obra Valores Cristãos, Baptista destaca:
"A tentativa de fundamentar a escravidão moderna nas Escrituras é uma fraude exegética. Enquanto a 'servidão' bíblica possuía mecanismos de proteção, libertação e dignidade, a escravidão colonial baseou-se no 'roubo de homens', um crime que a Lei de Moisés punia com a morte (Êxodo 21:16)."
Essa distinção é crucial: a ortodoxia assembleiana reconhece que o texto bíblico regulou formas de servidão antigas para mitigar a barbárie, mas nunca outorgou o direito de um homem possuir a alma e o corpo de outro de forma absoluta e racial.
3. A Soberania de Deus e a Injustiça Social em Amós e Tiago
A hermenêutica assembleiana, conforme expressa no Dicionário Bíblico Wycliffe (publicado pela CPAD), enfatiza que a justiça social é um imperativo da santidade. O silêncio diante da escravidão é interpretado como conivência com o pecado.
O comentário sobre o profeta Amós nas Lições Bíblicas de adultos reforça:
"O juízo divino sobre as nações vizinhas e sobre Israel (Amós 1-2) decorre da desumanização do próximo. Deus não ignora o clamor daqueles que são vendidos por um par de sandálias. O Evangelho não é apenas espiritual; ele é transformador das relações humanas."
Do mesmo modo, a abordagem assembleiana de Tiago 5:4 serve como uma condenação direta aos protestantes que enriqueceram à custa do suor e do sangue de africanos e seus descendentes. Reter a liberdade e o salário é, na ótica pentecostal, um pecado que "clama aos ouvidos do Senhor dos Exércitos".
4. A Unidade em Cristo: O Golpe Final no Sistema de Castas
A eclesiologia assembleiana fundamenta-se na unidade do corpo de Cristo. Se o batismo no Espírito Santo é acessível a "toda carne" (Atos 2:17), não há espaço teológico para a segregação ou para o senhorio de um crente sobre outro.
Conforme o pensamento de Stanley Horton, em sua Teologia Sistemática:
"O Novo Testamento introduz um princípio que torna a escravidão obsoleta: a fraternidade em Cristo. Ao tratar o escravo como 'irmão amado' (Filemom 1:16), o Evangelho remove a base de sustentação da instituição escravista, desmoronando o orgulho racial e social."
Conclusão: A Responsabilidade do Pensamento Ortodoxo
Conclui-se que a defesa da escravidão por protestantes do passado não foi um erro de "leitura literal", mas sim uma apostasia ética. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus e a produção literária da CPAD convergem para um ponto comum: a liberdade é o estado natural do homem criado por Deus.
Qualquer sistema que negue essa liberdade deve ser rejeitado não apenas como injustiça social, mas como uma afronta doutrinária à obra de Cristo, que veio para "pregoar liberdade aos cativos" (Lucas 4:18).
Referências Bibliográficas e Fontes Oficiais:
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD.
- BAPTISTA, Douglas. Valores Cristãos. Rio de Janeiro: CPAD.
- HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD.
- SOARES, Esequias. O Ministério Profético em Amós. Rio de Janeiro: CPAD.
- Wycliffe. Dicionário Bíblico. Rio de Janeiro: CPAD.
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